História pelo décor

Eric Konigsberg - O Estado de S.Paulo

Na Casa Cor de Nova York, Gloria Vanderbilt recria seu quarto de adolescente

Desde o dia 16, uma townhouse no número 22 da Rua 71, em Nova York, abriga a Kips Bay Decoration Show House, uma espécie de Casa Cor americana. Quando os 32 designers abriram os espaços que decoraram para a mostra, que vai até 17 de maio, muitos falaram das dificuldades de trabalhar num lugar tão difícil como esse imóvel de cômodos imensos, um passado manchado e um futuro incerto - a construção está à venda por US$ 75 milhões, preço considerado absurdo no mercado.

Gloria Vanderbilt marca presença na mostra deste ano. Ela recebeu carta branca para decorar um dos ambientes e optou por recriar o quarto de dormir de quando era adolescente e morava com uma tia na casa. O ambiente, onde trabalhou com o decorador Matthew Patrick Smyth, é forrado de papel de parede prateado e mobiliado com uma cama, uma cômoda com pinturas e um relógio pedestal com curvas barrocas datado de 1857. Há estuques e painéis no estilo do período em toda a volta das paredes. Atrás das janelas, foi pintada sobre madeira uma cena em trompe l?oeil que mostra neve caindo na Rua Washington Mews.

 

"Eu vivi neste quarto quando tinha 16 anos", diz Gloria, que hoje tem 85. "Minha tia Gertrude Vanderbilt Whitney o decorou para mim." O nome de Gloria é mais conhecido pelos americanos que eram jovens há 30 anos, por causa dos jeans assinados por ela. Os que pertencem a uma geração bem anterior lembrarão da menina que se tornou uma celebridade na década de 30, quando, herdeira da fortuna do rei das ferrovias, Reginald Vanderbilt, foi objeto de uma ação judicial na qual sua tia Gertrude a tirou da custódia de sua negligente mãe, Gloria Morgan.

A ideia de pedir a Gloria que participasse da mostra foi de seu colaborador, Smyth, que a incentivou a completar a decoração do quarto pintando um trecho de Era uma vez, seu livro de memórias de 1985, na parede atrás da cama. Ela descreve detalhadamente as portas-janelas que davam para as ruas da vizinhança, as cortinas de tafetá, o papel de parede prateado.

Smyth decorou o quarto com alguns objetos que não são descritos no livro, como uma poltrona sem braços de Burma. Também mandou pintar um unicórnio na parte lateral da cômoda e cobriu a cabeceira e os pés da cama com tecido azul prateado. Há até livros que Gloria lembra ter lido quando menina.

"Voltei a esta casa uma vez", diz ela. Há alguns anos, esteve numa festa dada por um diretor de cinema que morava no térreo (há muito tempo, a casa foi dividida em apartamentos). "Muita coisa mudou; às vezes é melhor não voltar atrás", diz ela.