Hacker também no décor

Penelope Green - O Estado de S.Paulo

Faz-tudo de todo o planeta alteram móveis e peças da Ikea para atender as exigências de cada um

Winnie Lam estava pensando em comida quando criou o pufe Chocolate Sundae Toppings, acrescentando alguns sacos de pompons de algodão a uma peça da Ikea. "A idéia veio da observação de uma bola de sorvete", explica Lam, de 31 anos, que vive em Montain View, Califórnia, e é gerente do Google. "Sou amante de chocolate, mas prefiro olhar para ele do que comê-lo." Já o guitarrista Alex Csiky, 43 anos, natural de Windsor, Ontário - que queria arrasar a indústria de instrumentos ao mesmo tempo em que criava um som fantástico -, construiu sua fina e clara guitarra a partir de uma mesa de pinho da Ikea. Enquanto isso, a artista Christine Domanic, de 28 anos, encontrou inspiração para o banco com rodízios na leitura de anúncios de sexo das últimas páginas das revistas de Filadélfia. Seu simpático Wiener Bench - uma plataforma de madeira com tubos de crochê rosa aplicados - foi feito a partir de uma velha mesa lateral da Ikea mais os fios de 60 suéteres usados e o estofamento de um sofá deixado no lixo de sua rua. Lam, Csiky e Domanic nunca se encontraram, mas estão conectados por uma coletividade global (e nada oficial) conhecida como Ikea hackers. Faz-tudo, maníacos por tecnologia, artesãos e designers de objetos e móveis, esses hackers estão unidos somente por uma perspectiva - a que encara a estante Billy ou a mesa Lack da Ikea não como objeto acabado, mas sim como matéria bruta: uma tela branca pronta para ser composta por cores e formas. Eles são uma subcorrente de um movimento maior e em expansão, o faça-você-mesmo, um imenso guarda-chuva para filosofias e manifestos, incluindo anticonsumismo, antiglobalização e ambientalismo, entre outros. Os hackers ganharam recentemente um expositor com Mei Mei Yip, redatora malaia de 37 anos, que vive em Kuala Lumpur e trabalha para agências de publicidade. Mei Mei, que se autodenomina "Jules" por causa da cadeira da Ikea que ela ama, e não tem filiação alguma com a gigantesca fábrica de móveis sueca, diz que não é particularmente habilidosa, mas com seu blog, o ikeahacker.blogspot.com, construiu uma enciclopédia de hacks - como são chamados os objetos Ikeas alterados - , pinçando designs e projetos na web e convidando os interessados a apresentarem suas criações no blog. Em casa, ela mesma vê crescer uma família de móveis Ikea, mas não os considera hacks. "Bem, talvez três deles", admite, destacando a torre de armários de parede, a mesa lateral que transformou em móbile de escritório e o armário de banheiro a que acrescentou portas. "Mas eles não se classificam para meu site", diz. Mei Mei também coleciona hacks que vão além, tanto em conceito quanto em design, caso da cadeira Nata Vintage - feita pela Anatomic Factory, uma associação de designers de Florença, Itália - que é um objeto à la Duchamps, juntando uma bengala a uma cadeira Ikea. "Nata Vintage (ou nascida vintage) provém de uma reflexão sobre o eterno retorno do antigo, como uma tendência recorrente do mercado", explica Marco Popolo, um dos designers do objeto. "É uma provocação: o que de melhor existe para vender uma cadeira vintage do que emprestar uma bengala, estereótipo de velho, para substituir a perna de um estereótipo clássico de uma cadeira Ikea?" Popolo acompanha o blog de Mei Mei, que considera "um interessante e imenso contêiner, rico de idéias". Ao que Mei Mei rebate: "Acho que a Ikea apenas torna fácil o faça-você-mesmo... Ela já é um sistema de combinar estruturas com componentes. Mexer neles apenas leva as coisas mais longe, encontrando outra proposta para as necessidades de cada um".