Flor de copenhague

Olívia Fraga - O Estado de S.Paulo

Formas orgânicas marcam o estilo de Louise Campbell

O ano era 2005. O Salão do Móvel de Milão fazia a cidade fervilhar de idéias no grande pavilhão, nas lojas, nas ruas, nos prédios abandonados alçados à categoria de museus de arte pelas mãos de artistas do mundo todo. No estande da dinamarquesa Hay, o burburinho girava em torno de uma cadeira negra, de estrutura de borracha e aço, forrada de feltro, que lembrava uma flor de quatro pétalas. "Prince Chair" (Cadeira Príncipe): de masculina, só o nome e a cor.Nessa época, Louise Campbell já despontava em sua Copenhague natal como uma das designers mais promissoras da Escandinávia. Mas Milão é Milão, e a exposição da Prince Chair, que mal nasceu e já foi parar no MoMA de Nova York, serviu de pontapé para a carreira internacional dessa dinamarquesa de 38 anos.O acento britânico, a piada sobre o mau tempo da cidade e o humor irônico quase fazem de Louise Campbell uma londrina perfeita - mas o que ela quer mesmo é sossego, para ela e o filho de oito anos, que, em uma hora, a propósito, precisa pegar na escola. "Adoro Copenhague. Gosto do conforto de almoçar na vizinhança, de meu filho estudar a dois quarteirões do meu escritório e de minha casa", diz ela, servindo-me uma fatia do bolo de maçã que acaba de aprender a fazer. "Acho que vou trocar o design pela culinária, o que acha?", diz sorrindo. O escritório da rua Gothersgade é quase um home-office (seu apartamento fica na rua de trás): cheio de cadeiras, poltronas e uma pequena cozinha, nele ela pode passar horas entre ofício, lazer e refeições. Essa tranqüilidade só veio a duras penas, após uma temporada de 10 anos na Inglaterra. "Londres é uma cidade caótica, de muitas vaidades", define. Mas foi lá que Louise apropriou-se de seu ofício, tendo estudado design na Art College por três anos."Bem redonda"A carreira de designer parece estar fadada aos happenings do mercado. A exposição de 2006, novamente em Milão, foi ainda mais marcante para a trajetória de Louise. Dessa feita, patrocinada pela italiana Zanotta, Louise apresentou a "Veryround Chair" ("Cadeira Bem Redonda"). Na ocasião, ela saiu com um gracejo na divulgação à imprensa: "A Veryround tem o prazer de anunciar que não liga muito para as outras cadeiras". Sim, porque a engenhosidade da Veryround consiste em encaixar duas placas de aço redondas, uma delas sendo um pouco maior que a outra, ambas perfuradas com círculos que se sobrepõem. Essa sobreposição de placas cria efeito tridimensional. É a ornamentação beirando a arte psicodélica, porque a cadeira ainda afunila no centro, para poder ser apoiada no chão. Foi parar no MoMA também.Os motivos repetidos - círculos, curvas, folhas, flores - e a sugestão dos trançados, que mesmo em metal remetem à delicadeza dos trabalhos manuais, são a conexão segura do trabalho de Louise Campbell com o universo feminino, o lúdico e o desenho calcado na ornamentação, nos arabescos e nos grafismos, tão em voga na decoração deste início do século 21. Frente ao comentário, Louise fica pensativa, e joga a pergunta de volta: "Você acha mesmo?", duvidosa de aceitar uma definição sobre si mesma."Loucos e abstratos"Ganhadora de um iF Design e do prêmio Bruno Mathsson em 2007, Louise só um ponto deixa claro: tem se divertido muito com suas recentes incursões, ela que já produziu mobiliário, iluminação (é dela um dos destaques da coleção de 2005 do estúdio de Louis Poulsen), utilitários de mesa e objetos de decoração, e o que ela gosta de chamar de "design decorativo, simples e complicado ao mesmo tempo". Entre seus móveis "loucos e abstratos", o protótipo de uma estante que não serve para guardar (quase) nada; e, mais pé-no-chão, antecipa notícias sobre a coleção de porcelanas para a Royal Copenhagen, que será lançada na próxima 100% Design de Londres, em parceria com Thomas Bentzen. É assim que ela transita pelo design: do apelo da indústria pelo vendável à peça única, de conceito experimental, trabalho pelo qual Louise se confessa apaixonada. Escondidinha em seu ateliê, ela fica com o melhor de dois mundos.