Feita para resistir a furacões

Julie Scelfo - O Estado de S.Paulo

Nos EUA, o arquiteto Richard Meier, ganhador do prêmio Pritzker, projeta uma casa de praia de aço e vidro

A história de como Richard Meier, um dos mais famosos arquitetos do mundo, veio a projetar uma pequena casa de um dormitório em uma ilha provavelmente destinada à extinção remonta a quase meio século. Foi em 1969 e Phil e Lucy Suarez eram recém-casados. 

Suarez, aos 27 anos, tornou-se sócio do aclamado chef Jean-Georges Vongerichten e havia acabado de fundar uma empresa de produção de vídeos de música e comerciais. Ele havia comprado seu primeiro apartamento em Manhattan e pensou em reformá-lo. Um amigo lhe recomentou Richard Meier, que já era conhecido por seus projetos de edifícios brancos. 

Foi nessa época que George Lois, famoso no campo da propaganda e primeiro patrão de Suarez, convidou o casal para visitá-lo em Fair Harbor, uma pequena cidade na ilha de Fire Island. Lucy apaixonou-se pelos coquetéis comunitários e os jantares com pés descalços. 

Em 1971 o casal adquiriu uma pequena casa de verão em frente à baía em Fair Harbor e alguns anos depois a reformou. Como muitas residências na área, a estrutura era de madeira, sem ar condicionado ou isolamento, mas tinha espaço no deck para churrascos e convidados. 

O casal recebeu um número sem fim de amigos - e comprou duas casas adjacentes para abrigar os hóspedes. Por isso, foi muito doloroso quando um incêndio destruiu a casa, em 2011. “Foram 40 anos de fotos e todos os bricabraques presenteados por amigos”, disse Lucy. 

Eles ainda estavam abalados quando participaram de um daqueles jantares com Meier. Que ofereceu-se para ajudá-los na reconstrução da casa. O fato de um arquiteto que havia recebido o prêmio Pritzker, uma versão do Nobel da arquitetura, conhecido por projetos ambiciosos como o Getty Center, em Los Angeles, interessar-se por algo tão pequeno os deixou estupefatos. 

Mas ele adorou a ideia. Era como retornar ao início de carreira: a primeira casa que projetou e construiu foi em Fire Island em 1961, para o artista e ilustrador Saul Lambert e sua mulher. “Eles tinham US$ 9.000 (R$ 20 mil) para gastar”, lembrou o arquiteto. 

Lucy desejava que a casa tivesse o charme da antiga, mas, com base nas novas leis de edificação, que tinham por fim reduzir os danos provocados por tempestades, o novo imóvel tinha de ser elevado. Meier apresentou um projeto inteiramente diferente, com uma estrutura de aço e vidro de US$ 2,25 milhões (R$ 4,9 milhões) - e inúmeros desafios. 

Inicialmente, foi necessário cavar 3 m abaixo do nível do mar para enterrar os pilares de madeira. Em seguida, instalar uma estrutura de aço em cima que suportasse o equivalente e 25 t de vidro. “Foi construída como um mini arranha-céu”, disse o construtor Sam Wood. 

Além disso, algumas das vigas em “I” pesavam 2.267 kg e foi necessário alugar uma grua montada sobre uma barcaça para içá-las até o local diretamente do ferry. Mas Wood descobriu que a baía era pouco profunda para a barcaça se aproximar muito da praia. “Assim, uma a uma, trouxemos as colunas de aços do pier para a casa usando um carrinho de mão.” 

O trabalho valeu a pena. O primeiro teste da casa ocorreu em 2012, com o furacão Sandy. Enquanto muitos imóveis da ilha foram destruídos, ela ficou intacta. Como disse Suarez, “se essa casa cair, literalmente, a ilha terá desaparecido”. É uma construção bizarra naquela paisagem, uma estrutura de aço e vidro que se sobressai em meio às casas de praia mais convencionais. Mas talvez por causa da postura despreocupada da comunidade não se observou alguma reação contrária entre os vizinhos. 

Vongerichten, visita frequente dos Suarez, tem outra explicação: “Muitas pessoas bem sucedidas costumam despertar inveja. No caso de Phil e Lucy, você tem vontade de ser amigo deles”. 

/ Tradução de Terezinha Martino