Expert em um clássico

OLÍVIA FRAGA - O Estado de S.Paulo

Juliana Motter, dona do ateliê Maria Brigadeiro, faz de sua casa lugar de receber e experimentar o doce famoso

A dona do brigadeiro mora em São Paulo, tem 30 e poucos anos e dispensa o rótulo de gourmet. Juliana Motter, do ateliê Maria Brigadeiro, recebe a reportagem ouvindo Rolling Stones e comandando a equipe de três doceiras que trabalham a todo vapor na cozinha. O aroma de chocolate desafia a resistência de provar uma colherada - ninguém consegue evitar.

A história de "mudança de vida" de Juliana não chega a ser mais original, mas é revelador que ela tenha se atrevido a fazer seu primeiro bolo aos 6 anos e saído pela vizinhança onde morava, em Pinheiros, vendendo-o em pedaços. "Ninguém acreditou quando cheguei em casa com a forma vazia e um dinheirinho no bolso", lembra.

Antes de "viver de brigadeiro", como gosta de dizer, ela trabalhou como jornalista, um tanto por influência da mãe, que deu aulas na Escola de Comunicações e Artes (ECA), da USP. Juliana editou revistas de moda e comportamento - e escrevia sobre gastronomia por causa de sua formação na área pelo Senac. "Vivia levando marmitinhas de brigadeiros para a redação, nas festas de aniversário, receitas que eu mesma fazia", conta. Os doces eram elogiadíssimos, mas a receita Juliana guardava a sete chaves (e ainda guarda). "É mais ou menos o que faço hoje", desconversa.

A virada necessária aconteceu quando a diretora de arte da revista UMA, onde ela era editora, sugeriu que Juliana fizesse brigadeiro para 180 pessoas para uma festa infantil. Deu medo, mas ela topou. "Adorei a experiência e as pessoas começaram a me procurar a partir daí. Vi que conseguia dar conta. Larguei o jornalismo porque me dava muito prazer fazer brigadeiro."

Aliás, por que brigadeiro? Nem Juliana sabe. Era seu doce preferido na infância, o que mais gostava de comer na casa da avó. Lembranças dela, que era doceira, aparecem vez ou outra durante a conversa. "Minha avó adoçava tudo com mel, era uma delícia." E era cozinheira de testar muito. Disso Juliana não se esquece e pratica no dia a dia: seleciona no mercado os melhores ingredientes e faz experiências para criar o doce perfeito. Cismou com a qualidade dos granulados e conseguiu encontrar um tipo diferente, com menos gordura. Viajou para Nova York, onde fez curso de pâtisserie. E inventou sabores exóticos para os seus brigadeiros, como amendoim, kiwi, Ovomaltine, castanhas.

CASA- ATELIÊ

Receber e cozinhar é tão natural para Juliana que, quando assumiu ser "Maria Brigadeiro", já sabia que a casa que estava procurando para alugar teria de servir às duas coisas. "A clientela faz degustações na sala de estar", conta a doceira, que adora móveis antigos e design dos anos 1940.

O sobrado está repleto de poltronas antigas, tecidos coloridos e estampas de petit-pois. Uma penteadeira, herdada da avó, teve os puxadores trocados, cada um de uma cor, comprados na feira da Praça Benedito Calixto. Recém-reformada, de tijolos à vista e molduras de ladrilho hidráulico em volta da lareira, a casa só precisava de mais cor. "Queria encher a casa de vida. Gosto de coisas, de gente, do cheiro de doce. Minimalismo para mim é a morte!", afirma Juliana.

Na cozinha de quase 10 m², que sofreu poucas modificações desde que foi reformada, entraram os azulejos brancos e vermelhos (R$ 1 cada peça, na Casa dos Azulejos Antigos), uma pequena mesa de fórmica (da Tok&Stok), banquetas com pé palito (na Maria Jovem, por R$ 220 cada uma) e um suporte para panelas e tampas. "Todo o resto é original da casa", afirma. E parecia já ter "nascido" para atender às necessidades de Juliana e suas cozinheiras: a prateleira larga de fórmica, a menor para xícaras e copos, a pia com carrinhos encaixáveis para temperos, as panelas de ferro fundido e pratos. Parece até com uma casinha de boneca daquelas bem gulosas.