Eterna busca do perfeito

Maria Ignez Barbosa - O Estado de S.Paulo

Eleanor Brown, uma das mais emblemáticas decoradoras americanas do século 20, pautava sua vida pela elegância

Nascida em 1890, em clima ainda de século 19, a americana Eleanor Brown não queria ser vista como apenas mais uma entre as mulheres decoradoras surgidas na primeira metade do século 20 nos Estados Unidos e na Europa. Tendo decretado que o estilo vitoriano era reacionário e pouco saudável, partiu, já casada e ainda jovem, para criar uma empresa com a finalidade de decorar em grande escala - e onde todos os que trabalhassem com ela fossem formados pela Parsons School of Design, onde ela estudou e da qual mais tarde se tornaria presidente do conselho de administração. Antes de criar a McMillen Inc. nos anos 20, Eleanor teve de cumprir algumas etapas: estudar finanças, condição imposta pelo pai, um rico industrial de St. Louis, para ajudá-la a abrir o negócio; fazer um estágio na sucursal da Parsons em Paris e trabalhar por um período em Nova York como assistente de Elsie Cobb Wilson, conhecida profissional da decoração naquele início de século. O que pouca gente sabe é que foi no Brasil que essa figura baixinha, enérgica - e sempre de chapéu e colar de pérolas -, que morreu em 1991 com quase 101 anos, teve o seu primeiro filho, Louis (1916), e realizou o primeiro trabalho profissional: a decoração da Embaixada dos Estados Unidos no Rio de Janeiro, no início dos anos 20, a pedido do então embaixador Edwin Morgan. Ao casar-se, em 1914, com Drury McMillen, americano de origem escocesa interessado em projetos no Brasil, como a publicidade dentro dos bondes, seu destino seria São Paulo, mais precisamente uma propriedade na Chácara Flora, que é hoje a bela residência do colecionador Kim Esteve e sua mulher Barbara Leary. Morar no Brasil, no entanto, não foi empecilho para suas ambições. O casal tratou de comprar um apartamento em Nova York e, entre esse estar cá e lá, Eleanor conseguiu cursar a Parsons School of Design, tão decisiva na definição de seus novos caminhos. Determinada, não jogava fora nem tempo nem conversa. Era comum ouvi-la dizer: "Você precisa de tempo para viver. Viver exige tempo". Em 1928, ao se separar do marido, terminaram as viagens ao Brasil e nem um novo casamento, em 1934, com Archibald Manning Brown, a distrairia de manter sua empresa atuante, na crista da onda, e considerada durante todo o século como uma das mais prestigiosas dos Estados Unidos. Nada era impossível. Uma parceria com William Odom, diretor da sucursal da Parsons em Paris e de quem se tinha tornado amiga, lhe garantia receber, direto da França, os móveis da melhor qualidade para seus projetos. Entre aqueles no estilo dos Luíses, preferia o 16, pois as formas eram retas. Sua idéia sempre foi adicionar conforto ao clássico e ao rígido, apesar de que contenção, controle e formalidade eram traços de que nunca abriu mão. Embora usasse tapetes finíssimos e móveis de diferentes períodos, almofadas de tecidos antigos, terminações elaboradas em cortinas e muita porcelana, fazia questão de sofás, poltronas e cúpulas de abajur simples e despojados, retirando do ambiente qualquer ranço vitoriano ou eduardiano. Sempre respeitou regras e considerações históricas, como sendo incorreto colocar um espelho na parede atrás de um sofá, ou usar listras com móveis barrocos, ao contrário de Sister Parish, Elsie de Wolfe ou Syrie Maugham, que se permitiam maior liberdade e ousadia. Clientes famosos Poucas pessoas, no entanto, tiveram tantos e tão relevantes clientes. A casa em Detroit, que a McMillen Inc. decorou para o magnata Henry Ford, é um marco na história da decoração nos Estados Unidos nos anos 50. O projeto meio neogeorgiano é de autoria do famoso arquiteto John Russell Pope, autor também do Memorial Thomas Jefferson e da residência da Embaixada do Brasil em Washington. A qualidade, o refinamento e a riqueza das pinturas, da mão-de-obra e do mobiliário escolhidos por Eleanor e seu time só eram comparáveis ao que fazia a famosa Maison Jansen, em Paris. Nas paredes, telas de Manet, Bonnard, Matisse e outros grandes mestres. Acreditava que uma paleta contemporânea rejuvenescia estampas tradicionais. A seu ver, o homem só se sentiria bem num ambiente com referências e raízes. No tempo em que a Casa Branca esteve nas mãos de Lady Bird Johnson e de Betty Ford, a redecoração que se fez necessária ficou sob a responsabilidade da McMillen Inc. Também a Blair House, em Washington, residência dos hóspedes oficiais, foi repaginada por ela. Nos anos 80, ainda na ativa, um belo livro de Erica Brown, The Word of Mc Millen, veio celebrar os 60 anos da empresa, mas foi somente aos 88 anos que Eleanor decidiu se aposentar. Não era chegada a eventos sociais, mas gostava de receber em casa grupos de oito a dez pessoas para jantar. No meio da mesa, um pote de vidro com limões sicilianos. O amarelo era sua cor preferida. E nem mesmo bem tarde na vida abandonaria o cuidado com a aparência, as luvas, o chapéu e a atitude disciplinada. Betty Sherrill, há 50 anos na empresa e hoje a principal figura da McMillen Inc., foi testemunha da tenacidade, das exigências e do olhar visionário dessa figura tão ciosa de qualidade, que preferia anêmonas a qualquer outra flor, e que ela nunca viu chorar nem rir alto demais. Apesar de contida, um dia declarou que tinha em Betty a filha que nunca teve.