Estilo superlativo

Reportagem de Roberto Abolafio Jr. - O Estado de S.Paulo

Vic Meirelles cita o surrealismo e Tony Duquette em espaços criados especialmente para o Casa &

O conceito do trabalho de um profissional vem de seu repertório de vida, das viagens que realizou, dos livros que leu, das amizades que teve. Às vezes há espaço para a razão; outras, para a sensibilidade. Ao menos é assim com Vic Meirelles. Claro que o tipo de personalidade conta muito. Convidado a decorar dois ambientes exclusivos para esta nova seção do Casa&, por exemplo, o florista produziu seis. Ele parece ser superlativo em tudo. "Já que é para fazer, gosto de fazer bem feito", resume. E logo acrescenta: "Também não tenho medo de misturar." Para Vic, ao conceber um ambiente, não se pode ter receio de juntar os gostos mais particulares - e, quanto mais díspares forem os elementos da composição, melhor o efeito. Misturas insólitasProfissional badalado, o paulistano faz arranjos para as mais concorridas festas da cidade, algumas das quais agora também organiza. Mas, inquieto, guarda a vontade de extrapolar esse universo e se jogar no grande mundo da decoração. "Não decorei nenhuma casa até agora, a não ser a minha", avisa. Nos ambientes concebidos para a reportagem, na Casa Panamericana - construção no Alto de Pinheiros alugada para eventos -, Vic flertou, por exemplo, com o surrealismo. "Fui a uma exposição, no ano passado, no Victoria and Albert Museum, em Londres, e fiquei vidrado com o tema, que, acho, tem a ver com o que faço de um jeito intuitivo", diz.É o caso, por exemplo, do ambiente em que aparece o sofá Boca, do Studio 65, uma referência a Salvador Dalí. Outra citação é o trabalho do decorador americanoTony Duquette, morto em 1999, aos 85 anos, ícone que transitou por diversas áreas, da moda ao décor - característica com que Vic se identificou. Ele ficou fascinado ao ver a foto de um trabalho do decorador em um catálogo da casa de leilões Christie?s. "Quis logo copiar suas misturas glamourosas", confessa o florista, que então adquiriu o livro-síntese da obra do profissional (Tony Duquette, de Wendy Goodman e Hutton Wilkinson, editora Abramis). Assim, o "ambiente mais Tony Duquette" da produção tem direito a galhos e violões brancos ao fundo e móveis dispostos em posição simétrica com insólitas garças. "Ele era louco e eu também sou", diz Vic, que não abre mão de plantas e flores ao ambientar um espaço.A maioria dos autores gosta de salientar um estilo ou uma expressão individual, que estaria para além dos modismos. Vic não. Fashionista assumido ("já fui mais...") está sempre ligado à mais recente tendência e não se furta o direito de ser permeável ao criar. O mundo gira, as referências vêm e vão, e ele se influencia. É possível vê-lo no dia-a-dia, com camiseta básica e calça feita pela costureira amiga, ou fervendo, de madrugada, na pista do clube Vegas, na Rua Augusta,vestindo Pucci da cabeça aos pés. "Aliás, Pucci está com tudo", diz ele, que compra no Shopping Iguatemi, mas também na popular Rua 25 de Março. Como a indicar a pluralidade necessária para viver bem, resume: "Tomo chá com uma senhora da sociedade como saio com uma amiga travesti". Antes de abrir seu próprio negócio, em 1991, Vic estudava Arquitetura de manhã - na Faculdade de Belas-Artes, em São Paulo -, período em que chegou a trabalhar, à tarde, em um escritório de decoração e, à noite, produzia arranjos numa floricultura. "Era a Leonor Flores, onde a Leonor Barbosa, ao me ver mexer com as flores por acaso na loja, pediu que eu começasse a trabalhar lá."Ainda hoje ele mantém esse ritmo frenético no dia-a-dia. Seu descanso está nas viagens, seja para Amsterdã, seja para Santa Rita do Passa Quatro, interior de São Paulo. "A primeira cidade é fundamental para quem lida com flores; a segunda, onde fica minha chácara, tem uma cocada deliciosa."Como na vida dessa figura excêntrica, fica fácil detectar, em seu apartamento da Avenida Brigadeiro Faria Lima, a presença de um mix equilibrado entre o que é simples e luxuoso. Ou, vá lá, por vezes mais luxuoso do que simples. JOGO RÁPIDONome: Victor Fonseca de Souza Meirelles NetoNascimento: 12/10/1964, 43 anosProfissão: florista e festeiroDo que mais gosta: seu namorado e sua famíliaDo que menos gosta: gente falsaObjeto do desejo: um apartamento bem grande, "pra caber tudo"