Essência de modernidade

Beto Abolafio - O Estado de S.Paulo

No apê da estilista Clô Orozco, reformado por Felippe Crescenti, há paredes de concreto e um ar escandinavo

São 10 horas de terça-feira, 9 de junho. Preguiçoso, um sol brando banha a pracinha ao lado da qual fica o prédio onde vive Clô Orozco, na pacata Rua Rio de Janeiro, em Higienópolis. O caixote ilustra bem a arquitetura dos anos 60, típica do concorrido bairro paulistano.

Ao saltar do elevador, no quinto andar, depara-se com paredes de concreto, o chão de peroba de demolição e um pano de vidro jateado que aguça a curiosidade. Blim-blom! A proprietária, agachada junto à mesa de centro, no estar, arruma folhagens num vaso. "Estou atrasada", desculpa-se, ainda com roupa de ginástica, óculos escuros a ocultar os olhos vivos.

Nos 55 minutos seguintes - tempo em que a anfitriã se apronta para entrevista e fotos - dá para apreender melhor a essência do apartamento de 250 m² reformado pelo arquiteto Felippe Crescenti. Colunas e paredes de concreto mesclam-se com outras brancas e o mesmo piso reveste tudo. Há integração de espaços, sempre que possível, até mesmo na área íntima, com a banheira próxima à cama. O carrinho de chá, do finlandês Alvar Aalto, e a cozinha com madeira subindo pelas paredes emprestam um quê escandinavo ao lugar. Obras e fotos pontuam os ambientes e apontam que Clô é amiga das artes, além de valorizar objetos que expressam memória afetiva. Ao lado de um pato déco, trazido de uma viagem a Buenos Aires, por exemplo, há o passarinho de porcelana Lawrence, que só mais tarde se revelaria uma peça-lembrança de um antigo relacionamento da moradora. E o que dizer da coleção de jarrinhas de diferentes formas e cores, resgatada do antigo sítio em Pinhalzinho, no interior de São Paulo, a pontuar a janela da cozinha?

Quando vem para aparecer na capa deste suplemento, a estilista usa Huis Clos, nome da famosa peça de Jean-Paul Sartre e que também batiza sua conhecida confecção paulistana. Há 31 anos ela produz roupas, ora mais, ora menos cultuadas pela crítica especializada. Ainda tem uma segunda marca: Maria Garcia.

É possível, então, perguntar quem é Clotilde Maria Orozco de Garcia. "É uma coisa aborrecida de coerência", tenta, com humor fino, explicar ela. Pode-se dizer, aliás, que a moda de Clô é bem parecida com o local onde mora: sem excessos, mas de atitude marcante. Nada mais natural. "Nunca poderia esperar, por exemplo, que o mesmo decorador de Jil Sander fosse o mesmo de Versace", comenta. "E não é que li que era o mesmo, de fato?" Para quem boiou, uma explicação: as criações da alemã têm viés minimalista, caminho oposto às do italiano Gianni, morto em 1997.

Tranquila, como a capricorniana de 23 de dezembro, parece ter sido a forma de chegar, com Crescenti, ao conceito da reforma. "Um falava: 'Vamos quebrar tudo?'. O outro respondia: 'Vamos!'." A sintonia entre ambos tem motivo. O arquiteto é amigo de Clô há duas décadas e autor de seu apartamento anterior, na Avenida Higienópolis, com 175 m².

Hoje, a antiga mesa de jantar funciona como aparador. "E pensar que oito pessoas chegavam a comer em torno dela", diverte-se a proprietária, que está há 11 meses no endereço, mas, confessa, não tem tido muito tempo de curti-lo. "Embora esteja hoje mais ligada à gestão do negócio do que à criação, o ritmo acelera às vésperas da São Paulo Fashion Week."

Quanto à nova coleção da Huis Clos, a empresária não revela nenhuma cor do que se verá no desfile da próxima quinta-feira, no prédio da Bienal. Mas dá uma pista. "Terá um leve toque dos anos 80", conta a mulher de 58 anos, que empregou no mix da decoração, assinada por ela mesma, uma marquesa Biedermeier - estilo tão em voga na decoração daquela década.

 

A VISÃO DO ARQUITETO

Arquiteto renomado, o paulistano Felippe Crescenti formou-se há três décadas pela FAU-USP. Aqui, ele, que tem 56 anos, comenta a reforma no apartamento de Clô Orozco e a atividade paralela de cenógrafo.

Há quanto tempo conhece Clô Orozco e como é sua relação com ela?

Conheço a Clô há mais de 20 anos. Somos amigos queridos para todas as horas

Como chegaram às linhas gerais do projeto de reforma?

A partir de uma conversa, a Clô expôs o que queria e pensava para o projeto e, assim, comecei a desenvolvê-lo.

Qual o segredo para o bom aproveitamento dos espaços numa reforma?

O cliente saber como vive - realmente - e como quer utilizar o apartamento, sem fantasias bobas. Construir um espaço para a vida que se tem.

O que considera essencial em sua arquitetura?

Procuro ser objetivo, claro e verdadeiro na solução dos espaços e acabamentos.

Que prazer lhe dá, além de arquiteto, ser cenógrafo?

O trabalho de cenografia é complementar ao de arquitetura. Quando se faz arquitetura, nos submetemos ao sol, dependemos do seu trajeto - do nascente ao poente - para existirmos. Quando se faz cenografia podemos colocar o "sol" onde queremos - temos o poder de amanhecer ou entardecer nas mesas de luz. Para um arquiteto, isso é uma maluquice. A cenografia oferece outros exercícios de espaço sem o compromisso de perenidade da arquitetura.