Especial para amigos

- O Estado de S.Paulo

Nos anos 70, Zanine Caldas construiu para os Bettiol, em Brasília, 1.300 m2 de braúna, aroeira, ipê... e muito engenho

Este livro é uma homenagem à emoção viva da madeira e à força da cultura brasileira, registrada nestas páginas, que ofereço ao casal que sabe conviver bem com a beleza no morar. Eis a dedicatória que José Zanine Caldas fez no dia 5 de janeiro de 1989 à artista plástica Betty Bettiol e seu marido, o advogado Luiz Carlos Bettiol, em Zanine (Livraria Agir Editora, esgotado). Os dois eram amigos do arquiteto, desde o tempo em que ele foi trabalhar na Universidade de Brasília, nos anos 1960. Mas não é só.Pode-se entender fácil, fácil, o que Zanine quis dizer com a "beleza no morar" passeando pela construção de 1.300 m² que ele mesmo projetou para o casal, bem próximo do Iate Clube, na Capital Federal. Quase toda em madeira, fica em um terreno de 22 mil m² que teria pertencido ao presidente Juscelino Kubitschek, defronte ao lago Paranoá. "Nosso principal pedido foi para que os espaços mais importantes ficassem voltados para o lago", lembra ela. "Também não queríamos nada convencional." Segundo Betty, esse era um dos projetos prediletos do arquiteto, porque ele teve praticamente carta branca para fazer o que quisesse. E fez. Observar a fachada é um exercício estético que ainda hoje convida a pensar sobre como Zanine tinha um jeito muito particular de fazer arquitetura e traduzia o bem-viver nas construções. É como se a tradição encontrasse o novo e tudo se misturasse num todo coerente. O que dizer dos grandes pilares de braúna que sustentam a construção dando-lhe um ar portentoso e ao mesmo tempo despojado? Chamam atenção ainda o telhado num chapéu de quatro águas, a varanda que envolve a construção, as superfícies de vidro, além das vigas trabalhadas em aroeira e os tetos de ipê.Living octogonalO teto do living, aliás, é poesia pura. Parece um imenso guarda-chuva que coroa o mais importante ambiente da casa com um pé-direito imenso, criando sensação de certa monumentalidade, mas, diga-se, nada metida à besta. Já a iluminação é tênue. Aqui e ali aparece um ponto de luz. "Era para ficar com um clima de lampião", comenta o dono da casa. Olhando a partir do lago, à esquerda da construção, estabeleceu-se a área íntima do casal, próximo da piscina; ao centro, o setor social e de serviços; e à direita, um pequeno lago juntoda área dos fillhos, que são três Luizes: Luiz Alberto, Luiz Antonio e Luiz Augusto, todos advogados, para orgulho do pai. Eles não moram mais com a família, mas são de um tempo em que os filhos eram criados todos juntos. Dividiam o mesmo quarto com mezanino, hoje transformado em ateliê da proprietária.Paulistanos, Betty e Luiz Carlos casaram-se em janeiro de 1962 e, em fevereiro, já estavam em Brasília, para fazer a nova capital. Em pouco mais de 15 anos, começaram a erguer a casa dos sonhos. E pensar que faz quase três décadas que os dois residem lá, depois de esperar um bom tempo até tudo ficar pronto. As obras duraram de 1974 a 1978 e a família mudou-se exatamente em 23 de fevereiro de 1979. "Ainda lembro do traçado da casa feito no terreno", diz Luiz Antonio. Vindas da Bahia, as madeiras eram numeradas para obter a perfeita montagem das peças. "Deu tudo certo. Não alterei nada o que ele pôs", diz Bettiol, sem esquecer que a maior parte da madeira foi lavrada com a tradicional técnica do enxó, instrumento com o qual carpinteiros debastam as peças. A casa tem estrutura orgânica e permite acessos variados. O principal dá no living, ambiente octogonal, onde é possível ver um pouco da coleção de obras de arte que se espalha por toda a parte - da cozinha ao jardim. São, por exemplo, telas de artistas como Volpi, painéis de azulejos assinados por Athos Bulcão ou esculturas de Alfredo Ceschiatti, além de arte popular brasileira. Entre o mobiliário, destacam-se um conjunto de poltronas Mole, assinadas por Sergio Rodrigues, ícone do móvel moderno no Brasil, além de outros itens mais atuais de Maurício Azeredo. Abaixo do living fica a sala de jantar, com piso de tijolo natural 10 x 10 cm, também voltada para o lago. Grande, o ambiente tem, para facilitar a vida, duas mesas em vez de uma só, quase sempre ocupadas pelos filhos, noras e netos, além de, vira e mexe, algum amigo que aparece. Assim era com Zanine Caldas. "Sinto saudade do tempo em que ele vinha aqui e abria a geladeira atrás de goiabada com queijo", conta a dona da casa, que ainda recorda como o arquiteto tinha uma mania recorrente: a de puxar a gola da camisa para cima enquanto conversava com o casal, sobretudo quando se empolgava.