Equilíbrio

Beto Abolafio - O Estado de S.Paulo

Eis a marca do living criado para o Casa& por Roberto Migotto, que uniu o novo e o antigo

Jorge Ben Jor inventou uma batida diferente para o samba na metade dos anos 60. As canções podem mudar de letra, mas até hoje a levada inconfundível lhe garante sucesso entre um público cativo. De certo modo, o mesmo ocorre com Roberto Migotto. Foi a partir de sua terceira incursão em Casa Cor, em 1995, que o arquiteto determinou um jeito de fazer interiores transformado em marca registrada: a mescla entre o clássico e o contemporâneo. Não que ninguém tivesse produzido - ou produza - algo semelhante no Brasil e no mundo. Mas o então jovem Migotto conseguiu imprimir um estilo particular por aqui, quer se goste ou não. "Na primeira Casa Cor, vim com um ambiente clássico. Na segunda, mais clássico ainda. Só na posterior cheguei ao ponto de equilíbrio", relembra ele, que nasceu em Taubaté e contabiliza 25 anos de carreira.

A busca eterna pela justa proporção e harmonia entre o novo e o antigo pode ser verificada nas salas de estar e de jantar montadas com exclusividade para o Casa&. A locação foi na loja Érea,em São Paulo, onde o profissional empregou uma base neutra, traduzida pela combinação certeira de preto e branco. A ela ainda juntou pitadas de dourado e amarelo, que trazem certa luminosidade. O mobiliário compõe-se de estofados de linhas retas e clássicos de design do século 20 até poltronas Luís XV.

"Misturar, não fui eu quem inventou, mas acho que faço bem", resume ele, espécie de desconstrutor do clássico. Exemplos? Veja nas fotos exibidas aqui como os mesmos elementos se cruzam no visual dos dois espaços. O dourado das poltronas francesas usadas no ambiente de refeições repete-se no espelho antigo, a se ressaltar de maneira elegante sobre a parede preta do living. Já as estampas das almofadas em P&B do estar, caso de uma samambaia estilizada por André Lima ou do tradicional pied-de-poule, remetem ao painel do ambiente anexo, de efeito ótico. Há ainda o recurso clássico de certa simetria, mas não muita, mesmo quando se tratam de peças de hoje. E os toques de amarelo, considerado símbolo do escapismo por alguns fashionistas, têm um porquê. "É uma cor alegre e vibrante, que quase ninguém usa nas ambientações", considera.

 

Provavelmente não será amarelo. Mas o escritório do arquiteto, localizado na Vila Nova Conceição, mesmo bairro onde mora, vai ganhar prédio novo este ano. Cerca de 70% da demanda vista ali é de projetos arquitetônicos, em que o autor abusa de traços atuais. "Quanto aos interiores, há duas vertentes", comenta. A primeira usa estrutura mais clássica - marcada, por exemplo, por boiseries bacanas - e incorpora a tal decoração de mix típico. A segunda permite explorar qualquer tipo de décor a partir de um esqueleto moderno.

Essa é uma linguagem presente tanto na casa de empresários quanto na de gente famosa - como Adriane Galisteu, Deborah Secco e Ana Paula Padrão. Pode-se dizer que o próprio arquiteto ganhou uma aura de celebridade. "Não daquelas que têm 15 minutos de fama, mas que conseguiram deixar uma marca", faz questão de enfatizar o personagem, que diz só perder mesmo o propalado equilíbrio quando passa por turbulência no avião.

É possível que enfrente alguma ao voltar amanhã de sua ida ao Salão do Móvel, em Milão, depois de conferir como anda um apartamento que está reformando em Paris. A hipótese faz a gente pedir licença e mimetizar o conselho de uma canção bem-humorada de Jorge Ben Jor, citado no início: "Alô, alô, Migotto! Se estiver ventando muito, não venha..."