Entre quatro Paredes

Erica Gonsales REPORTAGEM / Ângela Caçapava PRODUÇ - O Estado de S.Paulo

A arte rompe os limites das galerias e invade as casas. Seria essa uma nova versão de muralismo?

A arte aplicada diretamente na parede é uma tendência, ainda tímida, que começa a tomar forma com o crescente sucesso de criadores contemporâneos e suas infinitas possibilidades. Hoje, pinturas, grafites e colagens estão sendo realizados também dentro e fora das casas.

 

Desde os primórdios o homem faz seus desenhos em cavernas. A motivação e as técnicas é que se modificaram ao longo do tempo. O muralismo, que, a grosso modo, é a pintura feita sobre a parede, já teve importantes expoentes, como os gênios Michelangelo, Picasso e Diego Rivera. Atualmente há controvérsias na hora de definir arte aplicada como muralista. Mas todos concordam que não importa a técnica utilizada: obras em grande escala, que usam paredes e muros, têm relação com o muralismo ou são uma evolução dele. No trânsito livre da arte, elas passeiam das ruas para os museus e galerias e também das telas para os espaços privados. "O grafite começou como um mural, os artistas nova-iorquinos já tinham a memória do muralismo mexicano. Depois foi virando intervenção", explica Speto, que vem, aos poucos, imprimindo suas criações em casas e apartamentos - a pedido de seus moradores.

 

Uma grande sereia feita por ele estampa a sala do skatista e gerente comercial Antonio Bonfá, o Totó, no bairro de Pinheiros. "A ideia foi levar o espírito do grafite, que é uma manifestação genuína das ruas, para dentro de casa. Em vez de simplesmente adquirir uma tela, buscamos reproduzir um conceito", explica Totó, que já era amigo do artista quando fez a proposta da "intervenção".

 

Os desapegados. Por enquanto, a relação próxima entre criador e morador tem sido o primeiro passo para conquistar uma dessas obras efêmeras. Elas pertencem mais ao espaço do que às pessoas que nele vivem, pois não podem ser transportadas no caso de mudança. Talvez por isso poucos estejam dispostos a pagar entre R$ 10 e R$ 60 mil pelos trabalhos.

 

 

 Grafite d’Osgemeos (2004) para Francis Petrucci

 

O documentarista Flavio Botelho teve a sorte de ser velho conhecido da artista plástica Laura Gorski, que, durante um jantar, sugeriu fazer uma pintura na parte externa de sua edícula. "Gostei da ideia de ter uma exposição permanente. Ficamos muito tempo conversando sobre as diferentes formas de se fazer isso", conta Flavio. A artista pintou a parede de cinza, baseada na projeção de uma de suas fotos de paisagens. As "sombras" de araucária dão a sensação de que o quintal é maior e enganam os sentidos de quem olha. Laura, que trabalha com desenhos de paisagem há dois anos, teve vontade de vê-los em escala maior. "No caso do que fiz para o Flavio, confunde. Você se pergunta se é mesmo a sombra de uma árvore", diz ela.

 

Foi em pleno almoço que o artista plástico e estilista Fabio Gurjão fez uma colagem de adesivos sobre vidro na casa da diretora de arte Graziela Peres. "Ela já conhecia meu trabalho, sabia que era uma coisa mais gráfica. E me deu liberdade total. Juntei todos os adesivos que tinha e fiquei lá criando durante uma tarde de sábado. Foi bem divertido." E Graziela não se importa com a possibilidade de perder tudo no futuro. "Não tenho esse apego", adianta.

 

O desprendimento é essencial para quem pensa em ter uma obra dessas e até para o próprio artista. A efemeridade faz parte do processo e é uma das características que o tornam único. Mesmo para quem tem em casa um grafite d’Osgemeos, os irmãos Otávio e Gustavo Pandolfo, sucesso mundial e assíduos frequentadores de galerias e museus. A estilista Francis Petrucci conta que suas paredes ganharam as aplicações em 2004, bem antes que o nome dos irmãos valorizasse tanto. "Para mim, o valor é o mesmo de antes. Mas tenho um acordo com eles: quando mudar, vou passar uma tinta por cima. É uma questão de respeito", confessa a estilista, que também tem obras de Nunca, que, com Osgemeos e Nina (outra criadora urbana), já pintou um castelo na Escócia.

 

Totó concorda que o preço de uma obra feita in loco não é material, mas emocional. Como em um relacionamento de casal, não é possível tomar posse, mas aproveitar enquanto o outro está ao seu lado. "Vejo mais como a materialização do respeito e da amizade do que como um produto que foi trocado por um cheque. Traz um sentido de apreço pela vida em tempo real. Enquanto estou neste tempo e espaço procuro aproveitar o que esses desenhos podem oferecer."

 

E para essa geração de artistas, o que importa é a liberdade de experimentação. A vontade é criar - com todos os materiais e suportes disponíveis. A parede seria apenas mais um deles, com a proposta de ainda exercitar uma boa dose de desapego.