Entre duas culturas

JENNIFER GONZALES - O Estado de S.Paulo

Nathalie Morhange trocou Paris por São Paulo há 20 anos e aqui criou seu paraíso provençal

Embora São Paulo e Aix en Provence não pudessem ser mais diferentes, Nathalie Morhange, nascida na segunda, encontrou semelhanças entre as duas cidades e, em uma manhã de 1989, decidiu que a primeira seria sua morada definitiva. "A luz de São Paulo é muito bonita e o clima é parecido com o do sul da França no verão", observa. "Na época, trabalhava em Paris, mas não gostava do frio e de morar em apartamento. Só quem tem muito dinheiro consegue viver em uma casa lá", diz a pintora, que passou a infância em um mas (construção de pedras típica da Provença).

Na fase parisiense, rodava o mundo com uma equipe de artistas que trabalhavam para decoradores internacionais. Numa dessas viagens, o grupo desembarcou em São Paulo - e Nathalie gostou do que viu. "Aqui teria clientes, condições de viver numa casa e muito sol. Além disso, os brasileiros têm um estilo parecido com o dos provençais: são abertos, simpáticos e falantes." Os objetos despachados em um contêiner mostravam que a mudança era mais do que simples aventura, mas aposta de vida. "Trouxe uma mesa de jantar e cadeiras, um sofá récamier, quadros e cerca de 900 livros, um terço dos quais sobre arte", diz Nathalie, que veio com a filha, Eloise, então com 3 anos.

Ela alugou uma casa no bairro do Butantã e, quatro anos depois, em 1993, comprou outra na mesma rua, onde vive até hoje com o marido, Francisco Martins, artista plástico capixaba. Aos poucos, a morada foi ganhando corpo e alma provençais. No fundo do terreno de 300 m², a artista construiu um ateliê, que mais tarde se transformaria no living, com portas francesas de vidro abrindo-se para o pátio. O estar ganhou paredes com trompe l?oeil (Nathalie especializou-se nessa técnica de pintura decorativa) imitando pedra, e o ambiente tem os tons plácidos do campo, com piso de tábuas corridas e tapete Aubusson (da By Kamy, por R$ 6.270) diante da lareira. No lado oposto, a cozinha exibe um balcão de azulejos pintados em estilo holandês. "Gosto desse local integrado ao espaço onde vivo", diz.

Numa segunda etapa, Nathalie mandou derrubar a casa original, localizada na frente do terreno, e recrutou o arquiteto Álvaro Razuk para dar forma a suas ideias. "Sabia exatamente o que queria", diz ela, que usou material de demolição em todas as partes da residência. Na nova ala, foi erguido um ateliê com pé-direito de 4,50 m e 85 m² de área, orientado para o sul. "Assim tenho luz indireta o dia inteiro e não se criam sombras quando estou pintando", diz a artista, que viveu, por alguns meses, no ateliê do pintor Paul Cézanne no Château Noir, em Aix en Provence.

Na mesma construção, o dormitório principal é voltado para o pátio, onde foi instalada uma minipiscina entre ciprestes e árvores resinosas. "Era importante ter um ponto de água no jardim, para me refrescar nos dias ensolarados e nas noites quentes", diz Nathalie.

Ela revela que está cogitando viver seis meses no Brasil e seis meses na França, indo sempre atrás do sol. "Vivo muito o instante, mas, talvez com o passar do tempo, esteja me tornando mais nostálgica", diz a artista de 50 anos. "Sempre haverá uma conexão profunda entre as duas culturas. Até o provençal, que está nas minhas origens, acabei entendendo melhor depois de aprender o português, já que o dialeto é herança do latim popular e, portanto, do espanhol, italiano e da língua portuguesa."