Encontro de poesia e design

Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

O japonês Tokujin Yoshioka, mestre em dar forma ao imaterial, se diz fascinado pelos processos naturais

Memory é uma poltrona que nunca está finalizada. É da interação livre entre o assento e o encosto com o corpo de seu usuário que nasce a forma do móvel. Elemento ativo no processo criativo, é ele quem molda a anatomia do produto. E, em última análise, quem define seu desenho, alterado a cada utilização. "A ideia foi harmonizar design e natureza com o sentido de mutação presente no mundo natural, sugerindo um projeto que nem sequer existe", diz o designer Tokujin Yoshioka - um dos 100 japoneses mais respeitados do mundo, segundo a edição da revista Newsweek do Japão - durante mais uma temporada de lançamentos em Milão.

 

Falando de design com a mesma desenvoltura de quem faz poesia - se é que, diante de suas criações, seja possível separar uma coisa da outra -, Yoshioka se confessa fascinado pelos processos naturais. "Porque eles não são criados, simplesmente nascem de coincidências que ocorrem para além da imaginação humana", pontua.

 

Reminiscências de nuvens no céu, do fluxo da água, de faíscas de luz - mestre em dar forma ao imaterial e ao subjetivo, a semelhança de seu grande mestre, o designer Shiro Kuramata - , citações poéticas são bem mais do que meras abstrações no trabalho de Yoshioka.

 

Podem, por exemplo, dar origem a uma série de mesas e cadeiras, a Ami Ami, da Kartell, feitas para absorver e irradiar a luz. Sugerir uma lágrima que cai, como em Tear Drop, luminária da Yamagiwa, concebida na escala do coração humano. Ou materializar um raio de luz, como em Tofu, da mesma companhia.

 

Não causa espanto, portanto, que seus trabalhos, que transitam livremente entre a arte e o design, façam hoje parte do acervo permanente de alguns dos museus mais prestigiados do mundo, como o Museum of Modern Art (MoMA), de Nova York; o Centro Pompidou, em Paris; o Vitra Design Museum, em Berlim; e o Victoria & Albert, de Londres.

 

Síntese do fazer artesanal de seu país, foi ao papel, uma de suas matérias-primas fetiche, que Yoshioka recorreu para compor sua mais recente criação. "Com Memory, procurei captar a beleza de uma folha de papel quando amassada", conta o designer, que já trabalhou com o material em outra de suas criações - o sofá Cloud, feito também para a Moroso.

 

"Durante toda a minha vida, tenho pesquisado novas formas de expressar texturas naturais por meio de produtos industriais", conta o designer, que há 20 anos mantém uma frutífera parceria com Issey Miyake, estilista radicado em Paris, famoso pelo tratamento tridimensional que imprime aos tecidos que emprega em suas roupas.

 

No caso da Memory, a matéria-prima primordial nasceu de uma série de experimentos realizados com um tecido misto, originalmente concebido para o setor da construção civil, constituído por folhas de alumínio recicladas e fibra de algodão. Maleável e resistente, é um material que surpreende pelo modo como preserva as formas nele esculpidas. "A beleza do móvel deriva não de uma forma fixa, mas da própria mutabilidade de sua aparência", comenta Yoshioka, satisfeito por mais uma vez deslocar o foco de discussão do projeto não para seu desenho, mas para o próprio desempenho do móvel.

 

marcelo.lima.antena@estadao.com.br

 

 

A Pane Chair, da Moroso, em exposição em Milão, em 2006 02 Tear Drop, esfera de luz que flutua dentro do globo de vidro transparente, da Yamagiwa 03 Cadeira e mesa da série Ami Ami, da Kartell, de 2009 04 A poltrona Cloud, da Moroso, também de 2009 05 Tokujin Yoshioka no detalhe e durante a moldagem de Memory, seu último projeto para a Moroso, lançado em abril no Salão do Móvel de Milão