Em função do som

Steven Kurutzy - O Estado de S.Paulo

Na própria casa, arquiteto americano buscou soluções para evitar o barulho da rua

O repórter levou poucos minutos para perceber que estava faltando alguma coisa na casa que Paul Masi, do escritório de arquitetura Bates-Masi, construiu há dois anos para a família. Enquanto os três filhos brincavam no andar de cima, Masi e a esposa, Liz, ambos de 42 anos, sentados à mesa na cozinha aberta com a sala de estar integrada, explicavam qual foi sua preocupação inicial ao construir no lote de 2 mil m² no centro da cidade, adquirido por US$ 840 mil (R$ 1,9 milhão) em 2012. Quando Masi se referiu à proximidade do principal problema para a localização da casa, tudo se encaixou. 

Era o fim de semana do Labor Day nos Humptons (Long Island). Multidões entravam e saíam do café da cidadezinha. O trânsito ensurdecedor se estendia por quilômetros. O caos se assemelhava ao de Times Square, só que com árvores e aroma de tortas recém-saídas do forno. Entretanto, na casa dos Masi reinava o silêncio. 

O casal até deixara totalmente aberta a parede de vidro do mesmo comprimento da sala, transformando o quintal em uma extensão gramada do living. “Quando você sai e vai até o passeio, ouve totalmente o trânsito”, disse Masi. “Aqui dentro não se ouve nada.”

O som, e sua ausência, determinou em grande parte o projeto da casa. O arquiteto estudou acústica, examinou projetos antigos e analisou como o som afeta a experiência do espaço. Criou uma série de paredes escalonadas e começou levantando um muro independente ao longo da parte externa da construção. Elas funcionam como barreiras de som e projetam uma “sombra acústica” sobre a casa. Como material de construção, concreto armado, revestido de tábuas de cedro para que a casa se integrasse à paisagem. 

As paredes do living estão recobertas por feltro cinza aplicado sob tábuas de cedro, colocadas aos pares, presas por colchetes de metal. O feltro contribui para abafar o som quando a parede deslizante de vidro está fechada, e as tábuas são ajustáveis, permitindo a Masi “afinar o espaço”. Ele queria refutar a ideia de que o modernismo é frio, e isso, segundo ele, pode ser atribuído ao eco que se produz em muitos espaços modernos. Aqui, além da falta de eco, há um calor óbvio, por causa do cedro e do carvalho que revestem os quartos, e do emprego elegante de materiais como mármore branco (no banheiro da suíte) e aço envelhecido (na lareira).