Em busca de um hóspede

Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

A escolha de cores e a iluminação determinam o sucesso, ou não, de quatro projetos de quarto

Moradores e suas histórias maravilhosas sempre renderam bons motivos para se decorar um imóvel. E, aplicada ao desenho dos dormitórios, a ideia pode funcionar como bom ponto de partida para "personalizar" qualquer projeto. Mas, em se tratando do mais pessoal dos ambientes, todo cuidado é pouco: nem sempre é fácil se atingir a síntese exata entre o décor e a sensação de acolhimento que se espera de um quarto.

 

Para além da simples combinação de elementos alusivos a qualquer tema - móveis, equipamentos, acessórios decorativos -, dois fatores devem ser observados com especial atenção para um bom desempenho na tarefa: a escolha das cores e a iluminação. São eles, em última análise, que serão os responsáveis pela percepção geral, e pelo clima, que se tem de qualquer composição.

 

Com a devida ressalva ao objetivo comum de se atingir o máximo de visibilidade em uma mostra que conta com mais de 100 ambientes decorados, pode se afirmar que é justamente na habilidade de cada profissional em lidar com os dois elementos que se revelam os pontos altos, mas também as deficiências, dos quartos e suítes em exibição na Casa Cor 2010.

 

Muito brilho. Na Suíte do Casal Apaixonado, assinada por Sueli Adorni, por exemplo, a palheta afinada de cores e a distribuição eficiente do mobiliário - com destaque para a cama do casal, assinada pela decoradora - acabam, de certa forma, ofuscados pelo brilho excessivo da iluminação carregada e do uso intensivo do vidro, espelhos, cristais, acrílico e de toda sorte de metais cromados.

 

Um pouco de parcimônia na utilização da luz, com certeza agradaria, e muito, ao esfuziante casal, que à parte celebrar - com brilho - a felicidade de seu encontro, certamente não se incomodaria em desfrutar, também, de áreas estratégicas menos iluminadas, ao menos ao redor da cama e na área da banheira.

 

Semelhante falta de sincronia entre personagem e ambiente pode ser presenciado no Quarto da Jovem Vaidosa, espaço criado por Cristina Barbara e Milena Purchio. Não, por certo, no que diz respeito ao programa estabelecido, que acerta ao imprimir uma atmosfera de camarim, de boudoir contemporâneo, ao espaço, que, além disso, exibe um acervo de obras de arte acima de qualquer suspeita. Apesar do bom gosto na seleção do repertório e do cuidadoso acabamento, o padrão de iluminação implantado no ambiente visivelmente excede sua proposta: uma atmosfera mais intimista, sugerida pela alternância de áreas menos ou mais iluminadas, seria bem mais apropriada a um ambiente que abusa do brilho e tem o branco como seu tom dominante.

 

Contrastes. Já no Quarto da Jovem Senhora, assinado por Antonio Ferreira Junior e Mario Celso Bernardes, e no Quarto do Jovem Atleta, projetado por Moreno, os deslizes, quando ocorrem, são de outra ordem. Balanceada, a iluminação, nos dois ambientes, é usada não para ofuscar, mas como recurso para delimitar e, em consequência, dar destaque a diferentes áreas da composição.

 

No espaço da dupla Ferreira Junior e Celso Bernardes, ganhando intensidade nos setores de trabalho e convivência e contornos mais suaves nas áreas dedicadas ao repouso e ao banho. Em Moreno, atuando como um recurso expressivo adicional, ao desenhar alguns efeitos nas paredes e pontuar, por meio de fachos luminosos concentrados, as muitas conquistas de seu ocupante.

 

Do ponto de vista cromático, porém, os dois ambientes podem dar margem a controvérsias: no caso da Jovem Senhora por talvez investir em contrastes tão violentos e se apresentar em cores tão excessivamente vibrantes para acolher a uma habitante que, assumidamente, já tenha atingido a maioridade.

 

Nas dependências do Jovem Atleta, por razão justamente inversa. Afinal, por maior que seja a necessidade de repouso de seu ocupante, é de se estranhar que alguém dedicado ao esporte possa se sentir verdadeiramente acolhido em um ambiente que investe tanto em sobriedade. Duas belas composições, por certo. Mas ainda à procura de seus hóspedes.

 

 

Brilho em excesso na Suíte do Casal Apaixonado, onde se destaca a cama desenhada por Sueli Adorni e executada pela L’Vitrier. Ao lado, as cores vibrantes do Quarto da Jovem Senhora