Ele mudou a Casa Branca

M.REGINA NOTOLINI - O Estado de S.Paulo

Inteligente e talentoso, o decorador Mark Hampton trabalhou para Reagan, Bush pai e Clinton

Mark Hampton, o celebrado decorador americano, morreu em 1998, aos 58 anos, tendo feito jus ao ditado francês, ‘Il faut meubler l’interieur de soi même’ ou seja, ‘É preciso mobiliar o interior de si mesmo’. Um estudioso que entendia de música e literatura, escrevia livros com conteúdo, dava palestras com leveza, pintava aquarelas como ninguém, teve durante anos uma coluna na House and Garden e tinha prazer em ensinar e dividir com os outros o que sabia. Palladio, Lutyens, Sir John Soane e David Adler eram mestres admirados e tema recorrente.

 

Não só conhecia profundamente estilo e gênero, arquitetura, design e os mais importantes edifícios do mundo por dentro e por fora, como era um atento observador do trabalho dos grandes criadores, não só os de ontem, mestres e predecessores, mas também o de seus contemporâneos. É dele o charmoso Legendary Decorators of the Twentieth Century, ilustrado com aquarelas de interiores feitas de próprio punho e publicado em 1992 pela Doubleday.

 

Nascido e criado em Indiana, onde estudou artes plásticas e história da arte, voltou-se inicialmente para o modernismo, mais na linha Studio 54 e nas pegadas de David Hicks, de quem se tornou representante em Nova York, em 1967. Sem abandonar o colorido do mestre inglês e a consciência dos novos tempos, e tendo trabalhado com Sister Parish e Albert Hadley e também na famosa McMillen Inc. durante alguns anos, preferiu partir para um mundo decorativo que buscava inspiração no passado, e logo percebeu que era possível ser tradicional e descontraído ao mesmo tempo, e que espontaneidade e nostalgia podem caminhar juntas.

 

O que soasse pretensioso seria sinal de vulgaridade. Para ele, era fundamental que o ambiente emanasse bem-estar. Não lhe interessava assumir um estilo tipo "marca registrada". Sabia o que fazia, e o porquê. Concordava com a frase de um de seus mentores que dizia que "o perfeito designer de interiores é aquele que, depois do trabalho pronto, tal qual um mágico, se subtrai e desaparece". Brilhante em qualquer estilo, versátil como poucos, faria o projeto de acordo com as circunstâncias do cliente. Para ele, decorar não deve ser uma questão de ego, pirotecnia ou de impor a própria vontade sobre a do cliente. "A qualidade é o que vai tornar o trabalho duradouro."

 

Em 1976 já era dono de seu próprio nariz e, com o boom econômico dos anos 80, não lhe foi difícil encontrar uma clientela disposta a gastar com antiguidades do século 18 e 19, tapetes orientais, chintz estampados e gravuras botânicas e arquiteturais. Sua memória visual e o profundo conhecimento que tinha em matéria de estilos fez com que logo estivesse restaurando e decorando espaços públicos e privados. Seu prazer maior era poder decorar um salão de belas proporções. Se arquitetonicamente bem resolvido, meio caminho já estaria percorrido.

 

Rigoroso em matéria de ordem e proporção, conseguia que elementos aparentemente discordantes convivessem em sintonia como se fizessem parte de um mesmo mundo orgânico. Podia criar um espaço com look anos 30, com cores cremosas e alouradas, e enchê-lo de antiguidades românticas, ou dar a uma casa de campo americana um jeito bem english country house com direito a papel William Morris na sala de jantar. No quarto dos donos de uma grande casa na Flórida, criou um look neoclássico que evocava os trópicos em alto estilo. Nesse espaço, para lembrar o mar e o céu, juntou os mais diversos tons claros de azul. Já em outro importante apartamento na Park Avenue, resolveu homenagear Elsie de Wolfe. Escolheu, para as paredes da enorme sala de jantar com lareira, um papel imitando as famosas treliças da legendária decoradora.

 

O home dos presidentes

 

Clientes importantes não faltaram. Para Nancy e Ronald Reagan fez o Green Room na Casa Branca e, também desta sala, um retrato em aquarela que ilustrou o cartão de Natal do casal presidencial em 1983. George e Bárbara Bush foram clientes assíduos e fiéis. Para eles, enquanto figuras públicas, decorou os espaços privados e o Oval Office da Casa Branca, a Blair House onde os presidentes americanos hospedam dignitários estrangeiros, a casa presidencial de Camp David e a casa do vice-presidente em Massachusetts Avenue. Mais tarde, em Houston, no Texas, fez a residência particular do casal, a casa de praia e a Biblioteca e o Museu Presidente George Bush.

 

Para os Clinton, fez o Blue Room, onde até então tinha sido mantida a decoração feita pelo famoso Stephane Boudin a pedido de Jackie Kennedy nos anos 60. Mais tarde confessou ter sido esse o seu maior arrependimento, apagar na Casa Branca uma obra já histórica desse grande mestre.

 

Para Estée Lauder fez três grandes casas e, para Pamela Harriman, quando embaixadora dos Estados Unidos em Paris, toda a parte privada da embaixada.

 

Mark Hampton deixou claro que, em nosso dia a dia, é possível aliar estilo e charme, e que privilégio e discrição são perfeitamente compatíveis: "O papel do decorador, hoje, é equilibrar o desejo de beleza, de chique e de glamour com as necessidades mais prosaicas da domesticidade". Dizia também que o minimalismo é para os muito jovens.

 

Elegante, bonito e agradável no trato, desde que entrou nunca deixou a lista dos homens mais elegantes do mundo feita anualmente pela famosa jornalista Eleanor Lambert. O livro Mark Hampton on Decorating, editado pela Random House, vale a leitura.

 

( www.mariaignezbarbosa.com )