Efeito casulo

Marcelo Lima - O Estado de São Paulo

Estúdios e microapartamentos colocam à prova a habilidade dos arquitetos em fazer render o espaço

Mesa lateral: um  móvel curinga em pequenos espaços

Mesa lateral: um  móvel curinga em pequenos espaços Foto: Galvin Brothers

Ninho, casulo, pequeno mundo. É sempre carinhosa a maneira pela qual os moradores dos estúdios costumam se referir a suas casas. Vivendo em espaços a partir de 20 m², deles é raro se ouvir qualquer menção, mesmo em tempos de pandemia, à ideia de confinamento. Ou ainda queixas de falta de privacidade, mesmo diante da ausência de divisórias entre os ambientes.

Sem tempo, nem espaço, a perder, quem opta por um viver compacto – e não são poucos –, parece ir direto ao cerne da questão: afinal, o que preciso para me sentir em casa? 

“O melhor da experiência de viver em um apartamento pequeno é a praticidade. Mas não é só isso. Gosto da exclusividade de saber que ele foi desenhado para mim. Para ser sincero, nunca vi uma decoração com tanta personalidade”, declara o advogado Andrew Labatut, que a cada dia se encanta mais com as soluções, sob medida, propostas pelos profissionais da Macro Arquitetos, para seu apartamento de 42 m², no bairro da Bela Vista, em São Paulo. 

Buscar o essencial, não deixar escapar nenhum detalhe, economizar centímetros. O que pode parecer limitante para muitos, para moradores como Labatut acaba por se converter em um passaporte seguro para uma vida mais ordenada e autêntica. Ainda que em poucos metros quadrados. 

“Gosto da simplicidade de viver em um espaço pequeno, porém otimizado. Vivo com todo o conforto que necessito”, declara a executiva Ana Julia Ghirello, que habita um estúdio de 29 m², projetado pelo arquiteto Antônio Armando de Araújo, em pleno Jardins paulistano. “O projeto conseguiu encaixar tudo que é importante para mim, dentro de uma estética que me agrada. A cozinha aberta para a sala é perfeita. Assim, posso cozinhar com meus amigos em volta”, diz.

“Encaixar tudo” se torna portanto o grande “x” da questão. Projetar um micro espaço demanda respostas precisas, já que qualquer decisão acabará, fatalmente, por impactar o cotidiano do futuro morador. Por outro lado, não deixa de representar um campo aberto à experimentação: mesmo uma área mínima pode ser subitamente ampliada, pela simples eliminação de tudo o que for supérfluo.

Por tudo isso, não surpreende que o interesse por espaços menores não pare de crescer – segundo o Sindicato da Habitação (Secovi-SP), nada menos do que metade dos lançamentos na cidade de São Paulo em 2018, tinham, em média, 45 m². 

Como bem lembrou o arquiteto italiano Carlo Mollino nos anos 1940, a casa pode bem ser comparada à uma concha, pronta para conter e moldar a vida. Mais atual do que nunca, a metáfora se aplica bem aos estúdios de nossos dias. Afinal, a concha pode até limitar, mas, nem por isso, impedir que uma pérola se desenvolva em seu interior.