Ecos do passado

Adriana Souza Silva - O Estado de S.Paulo

A partir de materiais de um antigo casarão, o arquiteto René Fernandes Filho redesenha a casa da fotógrafa Jade Stickel

Só acreditando em milagres para entender o que foi a reforma na casa da fotógrafa Jade Gadotti Stickel. Imagine a trabalheira para reproduzir num terreno quatro vezes menor, em pleno Jardim Paulistano, uma mansão de quase 1 mil m², que ocupava um antigo galpão de fábrica. Pois foi o que aconteceu.O "santo" do milagre é o arquiteto René Fernandes Filho. E a tal "provação" se deu num sobrado que, na planta original, tinha 220 m², três quartos e um banheiro no pavimento superior. Embaixo, ficavam a cozinha, uma sala modesta, o quintal com lavanderia, a edícula e a dependência de empregada.A garagem era estreita. Claro, nenhum desses ambientes sobreviveu à reforma. Mais: o casarão seria demolido e a fotógrafa fez questão de reaproveitar janelas, portas e outras peças no novo endereço. Todo o projeto teve portanto de ser elaborado a partir da casa antiga.Para começar, René refez o pavimento superior, que ficou com dois dormitórios e uma suíte. A edícula deu espaço a um pequeno, mas convidativo jardim. Já a dependência de empregada foi alojada perto da cozinha. E não parou por aí. Com alguns tijolos e muita criatividade, o arquiteto construiu um estúdio para a fotógrafa no andar de cima e uma nova garagem no lugar da lavanderia. "Deu trabalho, mas foi um desafio delicioso", conta Fernandes Filho.A localização da nova casa foi o primeiro transtorno que René teve de driblar. Na época da reforma, a rua pacata se transformou em corredor do tráfego por conta da interdição da avenida Rebouças, bem próxima. Assim, os caminhões com os materiais para a construção não podiam estacionar no local e as entregas tiveram de ser feitas durante a madrugada. Caçamba em frente ao imóvel? Nem pensar. Isso explica por que o sobrado demorou quase oito meses para ficar pronto, ao custo de R$ 1 mil o m² (incluindo o projeto). Esse valor seria maior caso Jade não tivesse reaproveitado caixilhos, luminárias, lareira, coifa e até o portão da garagem.Antes de começar a quebradeira, o arquiteto trouxe do antigo endereço o que Jade mais queria ter por perto: uma jabuticabeira de 6 m. "Nada como fazer uma refeição à sombra de uma árvore...", diz. Das poucas paredes internas aproveitadas, restaram intactas apenas a que servia de apoio à lareira e a que sustentava uma grande janela na fachada. Com a derrubada da parede dos fundos, René usou os vidros para fazer uma espécie de puxadinho e prolongar a sala. O sol também entra casa adentro pela lateral direita, através das cinco janelas redondas, com esquadrias retiradas da demolição. Também foram aproveitadas as portas de madeira, que se adaptaram com perfeição a novas funções: uma se transformou em janela do banheiro; outra, de pinho-de-riga, foi colocada na entrada de um dos quartos. As louças da cozinha e dos lavabos são outros remanescentes do antigo casarão. Já o piso e os azulejos são novos (linha Arquiteto da Portobello, R$ 23,90 o m², na Leroy Merlin).Quanto aos móveis, o sofá AtticaII de dois lugares da Artefacto (em sua versão atualizada, o modelo Hatria, de couro branco, custa R$ 13.563), a chaise-longue Sharon, da Formatex, e a mesa do estúdio fotográfico, criação das arquitetas Marcella Libeskind e Luciana Zeiter (R$ 6 mil, com tampo de vidro), são exceções no ambiente. Explica-se: a maioria do mobiliário a fotógrafa ganhou de presente, como a a cristaleira antiga e a cama de casal. "Nenhum móvel está aqui por acaso", garante Jade.