É um quadro

Yara Guerchenzon - O Estado de S.Paulo

A vida simples inspira a casa e a pintura de Raquel Taraborelli

O que era simples hobby acabou se transformando em paixão e, logo, em trabalho de reconhecida qualidade. Tanto que Raquel Taraborelli não vacilou em trocar a carreira de engenheira de alimentos para se dedicar profissionalmente à pintura de telas que retratam cenas da infância vividas em Taquarituba (SP), na chácara da avó. Os costumes da vida simples do interior talvez expliquem o interesse da artista em conhecer de perto as paisagens campestres que tanto inspiraram impressionistas como Van Gogh e Cézanne, pintores que viveram na Provença, no sul da França, região que encanta a artista e onde já esteve diversas vezes. Bem como os jardins de Giverny, perto de Paris, onde viveu o pintor Monet, cuja obra influenciou fortemente o trabalho de Raquel. O envolvimento da pintora com o estilo provençal também norteou o projeto de sua casa, construída há três anos num condomínio em Votorantim (SP). Foi para lá que Raquel se mudou com o marido e os dois filhos. "Aqui temos a sensação de viver numa chácara, com muita liberdade", afirma. Ao escolher o terreno de 4.600 m², a artista sabia exatamente o que desejava: ampla área na entrada para um jardim florido, e, ao fundo, a casa com poucos mas espaçosos cômodos. A proprietária explica que, assim como as moradas provençais, o seu projeto não tem varandas, justamente para a luz natural invadir o espaço interno. A construção de 440 m² em dois pavimentos levou um ano para ser concluída e foi feita praticamente só com materiais de demolição: portas e janelas de pinho-de-riga, portões de ferro e tijolos de demolição (com 23 cm, o milheiro custa R$ 400; com 27 cm, R$ 700, na Construvelho), usados em paredes de 30 cm de espessura. Todos os tijolos, aliás, são aparentes, com exceção da fachada - caiada em tom terracota, contrasta com os janelões azuis, como a arquitetura típica do sul francês.No lado direito fica o anexo com o ateliê de Raquel. No lado esquerdo, uma parte coberta abriga fogão à lenha, churrasqueira e a entrada do living. No salão de 120 m², o piso de lajota rústica (da Cerâmica Fênix, peça de 17 cm x 17 cm custa R$ 23,90 o m², na C&C) aumenta a integração entre cozinha, sala de jantar e estar com lareira, além de lavabo, escritório, acesso ao ateliê e escadaria. No andar de cima ficam três quartos e os banheiros. Nesses, paredes e bancadas brancas destacam os coloridos pisos de ladrilho hidráulico (de R$ 42 a R$ 48 o m² do liso, e de R$ 70 a R$ 120 o m² do decorado, na Dalle Piagge). Em cada ambiente fica clara a preferência pela simplicidade. "Não gosto de muitos móveis", diz Raquel. De fato, são poucos. E a maioria - como os da sala de jantar e os sofás - veio da casa de Sorocaba, onde a família morou por quase 20 anos. Outros são presente ou herança de família, caso da mesa, do banco e das poltronas de ferro ganhos da sogra e agora, usados junto à churrasqueira. Na verdade, a proprietária prioriza muito mais o espaço e a livre circulação do que a decoração. Essa, vale destacar, ficou em segundo plano diante da vista que se tem em cada ambiente: as janelas funcionam como molduras para a natureza. Por toda a parte avista-se o jardim que se estende desde a entrada da residência ao bosque de eucaliptos, ao fundo. "Não me preocupo com cadeira nova, mas com uma casa com flores colhidas no meu jardim."Idealizada pela moradora, a área verde é a alma do projeto. Raquel recriou cenários provençais no amplo terreno, como o caminho principal ladeado por lavandas (vasos de barro, lisos, com 34 cm de altura x 30 cm de diâmetro, R$ 20, na Uemura) e oliveiras. A artista também trouxe à tona lembranças da infância, cultivando um imenso roseiral no lado esquerdo do jardim, onde se vê a flor em cachos amarelos, rosas, vermelhos, brancos e champanhe. "Este jardim foi feito à moda antiga, explorando cores e perfumes, exatamente como era o da minha avó e onde passei parte da minha vida", recorda. Junto das lavandas, dálias e gerânios aguçam os sentidos.Na lateral esquerda, o caminho que leva à horta, nos fundos, prolonga a experiência de cores e aromas, pois ali também fica o pomar. Uma mangueira fornece sombra à mesa de granito junto à churrasqueira e foi o local eleito pela família para fazer as refeições. "Fui criada ao ar livre e então por que não aproveitar esse jardim para comer?", diz Raquel, enquanto prepara a mesa com a porcelana herdada da avó.