Dos tempos da vovó

Marcelo Lima - O Estado de S. Paulo

Conheça uma casa inteiramente reformada para receber móveis herdados da família

O espaço gourmet, que foi construído como anexo, se abre totalmente para a área externa por meio de panos de vidro

O espaço gourmet, que foi construído como anexo, se abre totalmente para a área externa por meio de panos de vidro Foto: Jomar Bragança

Tomar o mobiliário como ponto de partida para a reforma de toda uma casa não é uma solicitação das mais habituais na rotina de um arquiteto. Mas, a depender do acervo – e da habilidade do profissional – pode render bons resultados. 

“Meu cliente herdou de sua avó um conjunto de móveis e eletrodomésticos da década de 1950 muito bem conservados. Como ele se sentia, afetivamente, muito ligado a eles, seu maior desejo era vê-los de novo em uso. Só que, em um casa projetada para os dias de hoje”, conta o arquiteto mineiro Junior Piacesi, que comprou a ideia e hoje assina a reforma desta confortável casa de campo, situada em um terreno de 440 m², no povoado de Casa Branca, nos arredores de Brumadinho, Minas Gerais.

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Uma região predominantemente residencial, repleta de condomínios, sítios e chácaras, distante apenas uma hora de Belo Horizonte, e onde a presença da natureza, na forma de plantas e árvores, se faz sentir em toda sua intensidade. “Como vive parte da semana na capital, o casal de proprietários, quando está na casa, gosta de passar a maior parte do tempo ao ar livre. Ou, ao menos, de desfrutar desta sensação”, conta Piacesi. 

Assim, tendo em vista este objetivo, as divisórias internas, presentes na planta original, foram quase todas abolidas pela reforma. Um segundo pavimento foi acrescentado à edificação, dando origem a uma única suíte, enquanto a área da cozinha foi radicalmente modificada, se constituindo hoje um espaço de transição entre as áreas interna e externa. 

Tomada como prioridade máxima, a transparência com o meio externo se dá nos mais variados níveis: é quase total no espaço gourmet e no banheiro da piscina, que recebeu teto de vidro. Pode ser considerada intermediária na sala e no hall de entrada. Se revela tênue apenas na suíte, ainda assim, apenas por uma questão de privacidade.

“De repente percebi que poderia usar o fator luminosidade a meu favor para suavizar, um pouco, a presença do mobiliário de madeira escura”, revela Piacesi. Segundo ele, a iluminação farta não apenas ajudou a enfatizar ainda mais a relação entre arquitetura e natureza, como também contribuiu para dar o devido destaque aos móveis de época. “Especialmente tendo o branco ou o verde como pano de fundo”, pontua ele.

Funcionando como uma espécie de filtro à passagem da luz natural, as árvores ao redor da construção determinam áreas de sombra nos interiores, que se intercalando ao longo do dia, conferem dinamismo à decoração.

Devido às grandes aberturas, a ventilação natural também se revela abundante e assim, tal como imaginada pelos proprietários, a sensação de frescor é permanente. Muito, diga-se, em função da forte presença da madeira, não só nos móveis da coleção, mas também compondo as esquadrias e nos pisos.

Apesar de contar com tantas peças de época – o morador ainda tem a nota fiscal e o manual de instruções da geladeira comprada em 1955 – Piacesi diz reconhecer neste trabalho os mesmos traços de contemporaneidade que costuma imprimir a seus projetos. “O equilíbrio entre cheios e vazios, a luminosidade, o sentido de leveza”, comenta ele, que selecionou as obras de arte e os acessórios a dedo, com o objetivo de oferecer um contraponto à presença de tantos objetos do passado.

“Trabalhei com quadros e fotografias bem atuais, fazendo com que eles dialogassem com os móveis. Utilizei muitas plantas, assim como peças mais minimalistas. É uma casa para os dias de hoje, mas que ainda assim preserva a memória afetiva dos meus clientes”, resume.