Donos do próprio tempo

Sarah Maslin Nir, NYT - O Estado de S.Paulo

Morar isolado de tudo – e apenas com o essencial – é uma opção radical para fugir da correria cotidiana

Nick Fahey vive há 16 anos em uma ilha no arquipélago de San Juan, ao norte de Puget Sound, no Estado de Washington, onde sua única companhia é um cavalo quarto de milha de 26 anos. Fahey, de 67, mora em uma cabana construída no terreno de cerca de 400 mil m² de floresta que pertence a sua família desde 1930. Ele não tem geladeira, mas conta com a energia elétrica gerada por painéis solares, assim, pode carregar seu celular.

 

Há pouco conforto material, mas ele é dono de seus dias. "O tempo é um dos luxos de se morar aqui", afirma. Com exceção de cortar madeira para queimar e de cuidar da própria sobrevivência – ocasionalmente faz uma viagem até as ilhas vizinhas ou ao continente para vender a madeira ou comprar gêneros alimentícios –, está livre para fazer o que quer. Em geral, passa os dias perambulando pela ilha rochosa e tomando café com chicória. "Não me preocupo com o que visto ou deixo de vestir."

 

Abandonar tudo é uma fantasia que muitas pessoas têm, mas, para alguns, fantasiar não basta. Por uma razão ou outra – o desejo de paz em um mundo cada vez mais frenético, a tentativa de fugir da invasão da tecnologia ou a necessidade de um lugar isolado para se recuperar de um problema de saúde –, muitos se sentem impelidos a realizar essa fantasia, procurando a solidão em lugares remotos.

 

"Algumas pessoas têm necessidade de fugir do relacionamento social. Outras podem ter criado um estilo que evita o apego na infância, provocando uma necessidade de provar a si mesmas que não precisam de ninguém", explica a psicóloga e escritora Elaine N. Aron.

 

John T. Cacioppo, diretor do Centro de Neurociência Cognitiva e Social da Universidade de Chicago, acredita que os homens se sintam mais inclinados que as mulheres a levar uma existência solitária. Para alguns, diz, o divórcio em época mais tardia na vida ou outro acontecimento igualmente chocante pode desencadear esse impulso.

 

Fahey se mudou para a ilha em 1994, anos depois de ter se divorciado. Sua filha Anna, de 36 anos, vai visitá-lo uma vez por mês, e seu filho, Joe, de 39, que mora na França, vai para lá todos os anos. Há uns poucos habitantes do outro lado da ilha, mas Fahey prefere não ter contato com eles. Uma vez por semana vai até Anacortes, a 18 quilômetros de distância de barco, para visitar o pai, de 99 anos, que está em um asilo, e para ver a namorada, Deborah Martin, de 56, com quem tem um relacionamento há 15. "Somos independentes, e acho que é por isso que funciona, em parte", diz ela.

 

Para Roger Lextrait, de 63 anos, viver recluso pareceu uma mudança atraente depois de uma vida estressante como dono de restaurante em Portland, Oregon. Ele foi o único habitante do remoto atol tropical de Palmyra, em um arquipélago administrado pelos Estados Unidos no Oceano Pacífico, a mais de 1.600 km ao sul do Havaí, de 1992 a 2000. Roger chegou lá depois de viajar por 12 anos ao redor do mundo em seu iate, do seu divórcio e da venda de dois restaurantes – no início da década de 80. Parte do atrativo de viver na ilha foi o fato de que o tempo não tinha nenhuma importância. Mas ele pagou um preço. "Passei a ter crises de solidão", conta Lextrait, que ficou dependente da companhia de seu pastor alemão, TouTou. Hoje ele mora na Tailândia com a mulher, Jayne, uma americana que conheceu no Havaí depois de deixar Palmyra. "Quando saí da reclusão achei o mundo mudado. Não tinha ideia de que existia telefone celular."

 

David Glasheen, de 66 anos, comparou sua existência solitária a "ir para a lua". "Tudo o que você aprendeu não significa nada quando chega a um lugar assim", afirma ele, que mora na Ilha Restauração, na costa norte da Austrália, com o cão Quasi, desde 1996. Empresário, teve prejuízos financeiros e havia se divorciado quando uma namorada sugeriu que fugisse para uma ilha. Glasheen morava em Sydney e encontrou a ilha, um parque nacional desabitado, por meio de uma imobiliária. Ele e a namorada montaram ali sua residência, mas ela foi embora seis meses depois. "Não tínhamos água quente. As coisas não são fáceis aqui para uma mulher. A maioria dos homens também não aguenta."

 

 

 

A cozinha de Nick Fahey, de 67 anos, que mora sozinho em uma cabana em uma ilha no Estado de Washington