Doce França

MARISA VIEIRA DA COSTA - O Estado de S.Paulo

No Brasil desde 1997, Fabrice Le Nud conta sua saga como pâtissier

Douce France, na voz de Charles Trenet, é uma das mais belas canções francesas de todos os tempos. E é também o nome que Fabrice Le Nud escolheu para a pâtisserie que abriu em 2001, na Alameda Jaú, nos Jardins, a poucos quarteirões do amplo apartamento onde mora com a mulher, a carioca Florinda, e os dois filhos. Falante e bem-humorado, ele diz que a família, a confeitaria e as viagens são o fio condutor da sua vida. Passa boa parte do dia na loja, mas arranja tempo para fazer quiches e doces na cozinha antiga e bem iluminada do seu apartamento.

"Agora meio que sosseguei. Mas a verdade é que pus o pé na estrada muito cedo", conta Fabrice, que nasceu em Dreux, na Normandia, onde aprendeu a arte de fazer doces. "Venho de uma família muito simples. Quando tinha 14 anos, por necessidade, fui ser aprendiz de confeiteiro. Morava na casa do patrão." Era a década de 70 e ele só deixou o emprego para servir o exército. Aos 20 anos, chegou a Paris sem dinheiro. "Arranjei uma vaga numa pâtisserie quase na periferia." Ficou lá até 1985, quando jogou tudo para o alto e foi para a Índia. "Na verdade, queria vir para a América do Sul, mas me disseram que era muito perigoso." Durante seis meses, vagou de mochila entre a Índia e o Nepal. "Foi uma viagem interior, espiritual. Conheci pessoas e me conheci. Gosto de me sentir cidadão do mundo, não tenho medo de imprevistos e abro mão do conforto. Mantenho essa filosofia até hoje."

Até realizar o sonho de ter sua própria pâtisserie, o caminho foi longo. Quando voltou à França, foi trabalhar no restaurante do famoso Paul Bocuse. Num pulo, se viu preparando croissants, chocolates e as mais finas viennoiseries na Dalloyau da Rue Saint-Honoré, a mais célebre confeitaria da França, aberta em 1682. Ficou no local por três anos.

Clandestino

Inquieto, inscreveu-se num concurso para pâtissier no exterior. Conseguiu vaga no Hotel Intercontinental, no Rio. "Cheguei em 1º de março de 1989, para um contrato de dois anos. Fiquei mais seis meses, como clandestino, viajando pelo Norte e Nordeste." Já casado com Florinda, voltou para a Europa e cismou que queria ir para a Ásia. Ofereceram-lhe trabalho de confeiteiro no Mamounia, em Marrakesh, luxuoso hotel fundado em 1923 e frequentado por personalidades que iam de Winston Churchill a Alfred Hitchcock, que lá filmou O Homem que Sabia Demais. "Morávamos em frente ao hotel e lá nasceu nosso primeiro filho, em 1995", conta Fabrice.

O ciclo só se fecharia em 1997, quando voltou ao Brasil. Pensava em morar no Rio, mas apareceu uma chance na inauguração do Hotel Sofitel, na Rua Sena Madureira. "Tinha um córner, onde abri uma pequena boulangerie, Le Fournil." O sonho de toda uma vida estava perto de ser concretizado e, em 2001, juntando todas as economias, Fabrice inaugurou a Douce France da Alameda Jaú. Já tem uma filial no Morumbi Shopping e agora se empenha em fazer um salão de eventos na matriz dos Jardins.

A estabilidade lhe permitiu trocar um apartamento pequeno na Bela Vista por um de 200 m² perto da Avenida Paulista. Lá está um resumo da vida de Fabrice. Móveis marroquinos, pequenas lembranças de viagens e fragmentos do país onde nasceu, como livros, fotos, gravuras - e a televisão sempre ligada na TV5 francesa.

Ele e Florinda pouco mexeram na cozinha original. Já estavam lá o piso de ladrilho branco com tozetos azuis, os armários de laminado cheios de gavetas, o balcão de granito em diagonal, que separa a área de cozinhar da pequena mesa de vidro rodeada de cadeiras de acrílico transparente (modelo Uni, R$ 785 cada, na Tok & Stok), onde a família faz as refeições. O amarelo na parte superior da parede, sobre o azulejo com rodameio florido, foi escolha de Florinda, mas Fabrice colocou ele mesmo os pequenos quadrinhos com figuras de frutas. Aqui e ali, se destacam reminiscências de lares anteriores da família, como bowls da Bretanha com os nomes da família gravados e potes de cerâmica do Marrocos. E os apetrechos de um bom pâtissier, como a originalíssima máquina de descascar maçãs (R$ 240, na Humaitá Louças) e o funil dosador para o recheio de quiches (R$ 680, no mesmo endereço). "Amo essa parafernália toda. É minha vida. E voilà!"