Do áspero ao delicado

Jennifer Gonzales - O Estado de S.Paulo

A ceramista Rosa Pinc cria peças de decoração, explorando o que há de rústico na argila. Um trabalho que ganha exposição em Lisboa neste mês

A atmosfera de brasilidade e sofisticação low profile na loja da Natura em Paris, no bairro Saint-Germain-de-Près, tem um toque da paulistana Rosa Pinc. Encomendado em 2005 pelo arquiteto Arthur Casas, que assinou o projeto do espaço, o abajur de cerâmica com 95 cm de altura brinca entre o erudito e o popular, marca do trabalho desta designer. "Criar peças de decoração é um grande desafio. Gosto de saber que elas fazem parte do cotidiano das pessoas", diz Rosa. Na maior parte da vezes, os objetos - entre eles bowls, pratos e gamelas - não são esmaltados, justamente para reforçar a idéia de uma leve rusticidade desejada pela designer (os preços variam entre R$ 180 e R$ 300; já as luminárias, a exemplo do abajur da linha Nero Paris, custam em torno de R$ 2 mil). "Decidi dar prioridade à matéria-prima. Trabalho na argila in natura, mostrando a pigmentação, rudeza ou delicadeza de cada material", afirma Rosa. Texturas, formas e relevos são o destaque de suas criações, que recebem influência das técnicas de gravura (ela é formada em Artes Plásticas na FAAP). "Em 2000, procurava um novo suporte para substituir a placa de metal nos meus trabalhos quando, numa visita a um estúdio de cerâmica, fui cativada por essa forma de expressão", lembra a designer. "Gosto de sulcar as peças como se faz no metal. É como se estivesse desenhando linhas na superfície da argila. E, como na gravura, elas têm tiragens e são numeradas em série." Talvez devido à sua experiência acadêmica (a designer fez mestrado em História na PUC-SP), esta descendente de russos e lituanos pesquisa incessantemente a história da cerâmica, mapeando famílias que trabalham há gerações com essa arte. "A cerâmica faz parte da formação dos povos e, no Brasil, ainda existem alguns centros primitivos de produção, como no sertão de Pernambuco e no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais", diz Rosa, que reúne dados para um livro sobre o tema. Sua obra, porém, tem um olhar mais urbano, atraído pela pureza das formas, o que não a impede de colocar sementes, folhas e cascas em alguns objetos (série Balangandãs). "É gostoso de mexer, te chama pra colocar a mão, sentir a textura dos acessórios. E também é uma forma de homenagear esse repertório tão brasileiro", opina. Quando Rosa deixa um pouco de lado a linha de criação e utiliza esmalte nas peças, o preparado é feito por ela mesma, que estudou química. "Meu objetivo é alcançar um resultado diferenciado em todas as etapas do trabalho", justifica. Exemplo dessas peças são as garrafas que imitam vasilhames de leite. "Às vezes até coloco algumas do lado de fora do apartamento, como se fazia antigamente" brinca. A partir do dia 17, peças da ceramista estarão expostas na Galeria de Arte e Design, em Lisboa. Além de garrafas brancas, da série Todas as Cores da Terra, Rosa vai apresentar a luminária Brasilis, com estampa de Franz Post na cúpula, e grandes gamelas, da linha Os Reciclados.