Discreto charme do móvel

Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

Criações da Semana de Design de Milão trafegam entre o conforto, a racionalidade e a perenidade

Cinco mil brasileiros em Milão durante a Semana de Design 2010, na segunda quinzena de abril. A estimativa, ainda que não oficial, impressiona e faz pensar. De certo, a situação econômica do País melhorou e o interesse pela casa não ficou atrás. O mesmo se pode dizer do intercâmbio comercial entre Itália e Brasil nas áreas de design e decoração. Mas, guardadas as proporções, seriam essas as razões que motivariam tal contingente de pessoas a cruzar o Atlântico em busca dos últimos lançamentos do setor?

 

Por certo que sim. Mas não somente. A julgar pelo que apontam os institutos de pesquisas, nunca foi tão acentuado como nos dias de hoje o interesse mundial pelo já conhecido trinômio dos "f", ou, em outras palavras, as iniciais, em inglês, de três áreas que prometem aguçar o apetite dos mercados nas próximas décadas: fashion, food and furniture (moda, comida e móvel). Tudo o que, como cidade, Milão tem para dar e, principalmente, vender.

 

"As pessoas não visitam o Salão do Móvel apenas para fechar grandes negócios. Mas também para se inspirar, para se sentir parte de seu tempo", arrisca a crítica de design italiana Cristina Morozzi, para quem a presença brasileira é mais do que bem-vinda. "O design brasileiro já está integrado a essa cidade. Basta olhar o sucesso dos irmãos Campana. Natural que o público também queira participar da festa", afirma.

 

E, convenhamos, que festa! Apenas nas dependências do Salão do Móvel, no subúrbio de Rho-Pero, estiveram cerca de 2.500 exibidores, incluindo as mostras bienais Eurocucina e a Eurobagno. Por toda a cidade, havia um roteiro com 300 pontos de visita, com opções para todos os gostos e bolsos: da produção artesanal dos jovens designers aos milionários móveis desenhados por estrelas como a arquiteta iraquiana Zaha Hadid.

 

Assunto de todas as rodas, sua majestade o móvel este ano, definitivamente, resolveu marcar presença e surgiu mais elegante do que nunca. Longe se vai, portanto, a época do desenho indiferenciado. Mas que isso não signifique, é preciso que se diga, uma concessão à extravagância. Ao contrário: ainda sob impacto da crise, conforto, racionalidade e uma certa aura de perenidade se tornaram palavras de ordem nas mesas dos fabricantes. E bateram fundo na imaginação dos designers.

 

Assim, sofás, mesas e poltronas reassumem escalas mais abordáveis. Voltam a explorar matérias-primas naturais, como a cerâmica e, sobretudo, o couro. Se pretendem anfíbios, capazes de circular da sala para a varanda. E, via de regra, se apresentam mais limpos, mais lineares; econômicos, mas não pobres.

 

Particular no novo ideário da casa, o uso da cor surge como elemento-chave na afirmação do móvel no contexto doméstico – seja negando por completo sua existência por meio da total transparência, como acontece na já cult série Invisible, de Tokujin Yoshioka, ou reafirmando sua presença com uma palheta vibrante e saturada, que, com uma queda declarada para o amarelo, aparece em quase todas as coleções.

 

Na ordem do dia – como, aliás, não poderia faltar em nenhuma festa elegante –, o preto é saudado em grande estilo na inesperada coleção All Black, da Kartell, habitualmente dada a tons vibrantes e coloridos. Mas que ninguém imagine que tudo foi sobriedade na primavera do design milanês. Como elemento capaz de articular e personalizar os espaços, o design art continua a produzir a pleno vapor. Que o diga Fabio Novembre e sua enigmática cadeira em forma de esfinge para a Driade ou o incansável Gaetano Pesce, em mais um de seus exercícios alquímicos, para a Meritalia.

 

Na Milão 2010, que você desvenda aqui, o caminho é o do possível e o alvo, uma casa mais inteligente, montada com precisão e bom senso, mas na qual, em tempos turbulentos, mais do que nunca, é preciso se viver com personalidade. A do seu dono, claro.

 

 

Bite Me, poltrona de Karim Rachid, para a Xo

 

 

Poltrona Crash para a Established&Sons

 

 

 

Casa Milão, Magic Hole