Designer cria luminárias que unem tecnologia e sentimentos

Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

Batimentos cardíacos foram a inspiração para o projeto Life Lamp de Guto Requena

Dois dos pendentes da série Life Lamp, reproduzindo a frequência cardíaca de três indivíduos. 

Dois dos pendentes da série Life Lamp, reproduzindo a frequência cardíaca de três indivíduos.  Foto: Andre Klotz

Para o arquiteto e designer Guto Requena, o mundo não precisa de mais uma cadeira. Precisa é de objetos verdadeiramente significativos, concebidos com base na tecnologia, mas também na emoção. “Temos hoje a real oportunidade de experimentar de maneira mais orgânica e humana, gerando produtos únicos, capazes de realmente fazer diferença na vida das pessoas”, conta ele, que há exatos 10 anos vem investigando novas possibilidades de interação entre ferramentas digitais e sentimentos. Fruto deste trabalho de pesquisa, Requena acaba de lançar sua mais nova coleção, a série Life Lamp: três pendentes com cúpulas de resina impressas em 3D, cada uma delas reproduzindo a frequência dos batimentos cardíacos de homens em diferentes fases de suas vidas: o período fetal, a maturidade e a velhice. “Minha ideia foi produzir objetos que além de iluminar nos fizessem refletir sobre a forma como aproveitamos nossa vida, tão breve e tão pulsante”, conforme ele conta nesta entrevista exclusiva ao Casa.

 

O designer e arquiteto Guto Requena.

O designer e arquiteto Guto Requena. Foto: Andre Klotz

Como você avalia o impacto das tecnologias digitais no mundo do design? 

A cultura digital mudou pra sempre nossa maneira de nos relacionarmos com o mundo e com as pessoas, e isso acaba se refletindo no design, que deve responder às novas questões trazidas por essas tecnologias. Penso em um futuro no qual os produtos carregarão histórias pessoais, ampliando os ciclos de vida dos objetos. Acredito que só realizando esta interação, entre tecnologia e sentimento, nós designers estaremos, de fato participando da vida de nossa sociedade.

 

Este é o seu primeiro projeto que incorpora elementos subjetivos, como o afeto? 

Não, a base da minha pesquisa em design e arquitetura sempre foi unir novas tecnologias a sentimentos. Há uma década venho desenvolvendo essa pesquisa. Entre os projetos que já desenvolvi nesta direção destaco o Love Project: uma experiência de design e tecnologia que transformava narrativas de amor em objetos cotidianos. Eu convidava pessoas a narrarem uma grande história de amor e, por meio de diversos sensores, captava suas emoções para com elas imprimir objetos em 3D, como acontece na atual série Life Lamp. Pela primeira vez, eu concebia produtos que carregavam consigo dados íntimos e pessoais e que, portanto, mereciam ser preservados. Um exercício, digamos, de sustentabilidade afetiva. Ao mesmo tempo, a proposta buscava incluir o consumidor final no processo de criação de design, democratizando e desmistificando o uso das tecnologias digitais. Uma lógica completamente nova de criação, produção, transporte e venda.

 

Como as luminárias foram concebidas? 

A coleção Life Lamp foi criada para representar um ciclo de vida, para dar origem a um objeto sensível, composto por diferentes camadas. Sua sombra única resulta numa imagem complexa que, simbolicamente, expressa os caminhos e as surpresas que vamos encontrando ao longo da nossa existência. Três arquivos de áudio foram utilizados para gerar as cúpulas: o volume acelerado dos batimentos do coração de um bebê ainda na barriga da mãe, o do coração de um adulto, de 35 anos e, por fim, os batimentos de um idoso de 80. Esses dados foram então usados como parâmetro para que o software desenhasse as linhas que definem o objeto. Mais ou menos espessas, mais ou menos ramificadas. Particulares e únicas, como são os sentimentos de todos nós. 

 

uma das peças da série Life Lamp acesa.

uma das peças da série Life Lamp acesa. Foto: Andre Klotz