Design como ofício

Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

Jovem editor de design, Kaarah seleciona seus parceiros de criação e também produz por conta própria

O designer e editor de design João Kaarah

O designer e editor de design João Kaarah Foto: Divulgação

Ao jovem editor de design João Kaarah, à frente do estúdio de criação Nuun, em São Paulo, agrada a ideia de colocar a mão na massa. Literalmente. “Adoro esse ofício, me acalma, me mantém no eixo”, diz ele, que costuma arregimentar talentos de diferentes áreas para trabalharem em projetos conjuntos. “Valorizo a criação como resultado direto das vivências do designer com o seu meio, com o seu tempo. Sempre de maneira visceral e real”, afirmou ao Casa nesta entrevista exclusiva.

Bufê de madeira de João Kaarah, com interferência artística de Erica Ferrari

Bufê de madeira de João Kaarah, com interferência artística de Erica Ferrari Foto: Divulgação

Como é trabalhar como editor de design? 

Bom, no meu caso, tudo é muito autoral e bastante artesanal. Gosto de buscar parceiros com talentos diversos que, de alguma forma, me chamaram a atenção, para criar projetos em regime de coautoria. Foi o que aconteceu em parcerias com a artista plástica Erica Ferrari e com a estilista Anne Galante, por exemplo. Já em outros projetos, como o das mesas SAT, atuo sozinho. Nesses móveis, as bases de concreto são moldadas uma a uma por mim, em meu ateliê caseiro. 

Mesa SAT, com base de concreto. Design João Kaarah 

Mesa SAT, com base de concreto. Design João Kaarah  Foto: Divulgação

A produção do Nuun tem se caracterizado por seu visual limpo, menos exuberante quando comparada às criações de muitos dos jovens designers brasileiros. Acredita que para ser reconhecido como tal, o design brasileiro precisa contar com uma identidade forte e reconhecível?

O excesso de identidade me incomoda um pouco, porque, teoricamente, se algo foi feito no Brasil, para mim, já é genuinamente brasileiro. Sem mais. O designer, como qualquer outro profissional de nosso tempo, pode ter acesso a informações em questão de segundos. Isso faz parte do universo do homem urbano e contemporâneo. Ignorar esse fato em nome de uma ‘brasilidade’ estética, não vivenciada literalmente pelo artista ou designer, resulta, na minha opinião, em uma concepção criativa caricata, rasa e sem gracinha. 

Sofá Panorama, desenho de João Kaarah

Sofá Panorama, desenho de João Kaarah Foto: Divulgação

Quão importante é para um designer planejar a divulgação de seu trabalho? Ter um portfólio? 

Diria que essencial. Nossa indústria ainda carece de maturidade, tecnologia e mão de obra qualificada. Nosso sistema de produção é cheio de falhas, ninguém deve esperar, portanto, que o ofício do designer em nosso País termine com a simples entrega de um desenho ou de uma cópia em 3D. Aliás, muito cuidado com elas. No computador pode-se tudo. Materializar algo exige suor, dor de cabeça e persistência. Uma dica: visite fábricas, corra atrás de fornecedores, conheça e entenda os processos de fabricação de perto, identifique as falhas nesse processo e tire proveito delas. São elas as brechas para criar algo realmente novo na ‘terra do jeitinho’.