Desafio de criar o básico

marcelo.lima.antena@estadao.com.br - O Estado de S.Paulo

Duas vertentes distintas - mas não antagônicas - parecem desenhar o futuro dos objetos destinados ao consumo doméstico: de um lado, a produção autoral, que passa ao largo da indústria e se propõe a dialogar com o universo da arte e do artesanato. De outro, o desenho industrial propriamente dito, de autoria aparentemente anônima, direcionado para a produção em larga escala, mas cada vez mais sensível a valores de ordem simbólica e emocional. "Hoje sabemos que, quando um objeto emociona e traz boas recordações, temos maior facilidade em utilizá-lo. São fatores difíceis de serem dimensionados, mas perceptíveis aos olhos do consumidor. Diria que evocar esses conteúdos em produtos industrializados é, hoje, o maior desafio. São eles que conferem ?alma? aos objetos", afirma Ângela Carvalho, designer carioca com destacada atuação no segmento indutrial dentro e fora do Brasil. Aliseu, de sua autoria e primeiro ventilador de teto de plástico produzido no país, é ainda hoje exemplo emblemático de como um produto destinado ao largo consumo pode ser alçado à categoria de objeto de desejo. Não apenas em função de seu desempenho (no caso, 20% superior a dos equipamentos convencionais, com o mesmo gasto de energia), mas também pela elegância de seu desenho aerodinâmico, com pás baseadas no formato das hélices do avião. Um autêntico estranho no ninho num mercado até então dominado por objetos indiferenciados, de madeira ou metal. Lançado em 1995 e premiado no Brasil e na Alemanha (caso do IF Design, de Hannover), o Aliseu se revelou também um sucesso de mercado, com cerca de 100 mil unidades vendidas por ano. "A entrada do ventilador em nossa linha de produção motivou a abertura de uma nova empresa apenas para se ocupar do mercado de ventilação", revela Carlos Alberto Alves, diretor da Aliseu Tecnologia, atual fabricante. Sujeitos a parâmetros técnicos rígidos, desenhar para a indústria é um desafio que demanda esforço extra dos profissionais, diante da delicada tarefa de conciliar idéias inéditas e sistemas produtivos já instalados. Diferentemente da atuação do designer autonômo, projetar aqui é atividade que exige atuação multidisciplinar e atenção aos detalhes. "É fundamental tentar absorver ao máximo a cultura da fábrica - seus materiais e processos - para, a partir daí, vislumbrar como introduzir inovações, por menor que sejam elas", afirma Nelson Petzold, arquiteto que há cinco décadas desenvolve projetos em parceria com o engenheiro civil José Carlos Bornancini. Entre eles, a linha de tesouras Softy, para a Mundial (modelo único para destros e canhotos), além do célebre conjunto de talheres desenhado para a Hércules, em 1973, que hoje integra a coleção do Museu de Arte Moderna de Nova York . Com uma tiragem de 3 mil unidades por mês, o escorredor Seco, de plástico injetado, do designer Christian Machado para a Martiplast, é outro exemplo recente de como um pequeno detalhe pode turbinar a performance de um produto doméstico: de formato triangular, o produto possibilita um encaixe preciso num dos cantos da pia. Com desenho de inspiração orgânica, a saladeira Maui e o pegador Pega-Pega, da designer Cristina Zatti para a Coza, caminham na mesma direção. O recipiente plástico, desenhado para massas ou saladas, vem com pegador desmontável, dotado de um recorte que se encaixa perfeitamente nas bordas da peça, impedindo o deslizamento. Lançado em março passado, o produto já tem produção prevista de 40 mil peças por ano. "Criar produtos para o largo consumo é um ato de grande responsabilidade. Um erro do designer pode colocar em risco o consumidor, a indústria e até mesmo o planeta. Mas é também um grande prazer. Adoro ver o Aliseu em funcionamento. Sinto que não decepcionei o consumidor e ganhei a confiança dele no meu produto", diz Ângela. Carvalho.