Décor que sai do comum

Maria Ignez Barbosa - O Estado de S.Paulo

Principais projetos retratados pela cultuada revista texana ‘Papercity Magazine’ agora estão em livro

Surgem, de quando em quando, publicações, que, com especial acuidade, são mais capazes do que outras de captar e focar um certo clima, ou seja, a aura de determinados movimentos, modas e atitudes. De fazer, enfim, um retrato de momentos estéticos curiosos e únicos numa mesma cidade ou entre um círculo de pessoas.

Um exemplo é a Papercity Magazine (www.papercitymag.com), revista mensal texana, que só circula em Dallas e Houston, com tiragens diferentes para cada uma das cidades, mas que, surpreendentemente, é cultuada em todos os Estados Unidos por poetas, fashionistas e estilosos, que têm em comum o gosto por se cercar do bom e do melhor em matéria de criatividade e sofisticação. São os antenados afeitos a relaxar, drincar e jogar conversa fora em lofts, apartamentos ou galpões transformados em hábitats carregados de arte contemporânea e onde nada é banal.

Um livro publicado recentemente, Domestic Art: Curated Interiors (ed. Assouline, R$ 198,40 no www.saraiva.com.br), se não explica a razão do sucesso da revista, revela o seu segredo por meio de belas fotografias e texto impecável ao longo de suas 230 páginas. Trata-se de uma seleção de interiores domésticos publicados na revista entre os anos 2000 e 2008, quase uma década de muitos excessos e grandes baratos, muito dinheiro, sofisticação e luxo.

A autora, Holly Moore é, com o marido, dona da revista e sua editora-chefe. O livro, como ela diz na introdução, pretende mostrar 37 gloriosos projetos que vão desde pequenos pavilhões a disciplinadas mansões, como a de Dominique e John de Menil, de estilo internacional e decoração do costureiro Charles James, mas com arquitetura do famoso Phillip Johnson que ali morou. Passa por um cottage de 1880 construído por um imigrante alemão e habitado hoje pelo marchand Hiram Butler; por uma obra-prima do arquiteto orgânico Bruce Goff; pelo canto à beira-mar do artista McKay Otto, que, mais do que uma casa de fim de semana, é um estudo de antropologia misturado à boa arte, e pela pequena ode ao glamour feita por Ken Downing e John Saladino.

Tem ainda o espaço industrial de George Sellers, carregado de seus desenhos surrealistas, enquanto no bangalô de 1913, estilo chalé, de Michael Landrum, falam mais alto as reminiscências do passado. Há o ambiente do marchand de antiguidades Eric Prokesh, que namora os Luíses de França, mas depois os cozinha em banho-maria com cores saturadas. E aquele de autoria da decoradora Michelle Nussbaumer, que, para um cliente, instalou um château do século 18 e um velho pavilhão de caça num loft no centro da cidade, ambientado com ursos polares, espelhos venezianos, tecidos Fortuny e paredes de tijolinho. E ainda o do diretor de arte Mike Thompson tomando um uísque no Scotch Room que criou para si em casa, assistido por veados, faisões, animais selvagens, objetos exóticos e muita arte com estilo e humor.

Tem de feio e de bonito, de sensual e bom design, mas nada que seja despojado ou desprovido. São nomes talvez desconhecidos aqui, mas gente com história de vida, vivência internacional e morando em espaços que refletem identidades expressivas, independência e ousadia. Que um design tão inspirado e rico tenha encontrado espaço, surgido e adquirido cara e forma no Texas, como diz ainda Holly Moore, talvez se deva ao muito ar e espaço reinantes nesse Estado americano tão próximo do México.

REFERÊNCIAS

Não há nada, no entanto, que deixe de nos remeter a algo que já mora no inconsciente, na fantasia, que nos traga lembranças ou que nos fale de outros mundos, culturas e de histórias excepcionais. A casa dos De Menil, por exemplo, os fundadores da Menil Collection, uma das mais ricas coleções de arte dos Estados Unidos, se mantém intacta como se nela ainda vivessem seus donos. Ali, nos anos 50, 60 e 70, o casal recebia para festas e jantares figuras como Matisse, Cartier-Bresson, Marx Ernst, Roberto Rossellini e Jean-Luc Godard. Franceses e católicos, ele um ex- membro da Resistência, ela conhecida pela beleza, foram para o Texas à frente da Schlumberger, companhia eletrônica especializada em equipamentos para a exploração de petróleo. Descobriram a arte moderna e acabaram se tornando grandes colecionadores.

Talvez pela dimensão e o dinheiro do petróleo, o distante Texas esteja mais aberto a habitantes do mundo do que outros Estados americanos ainda muito provincianos. Christian Ekhart e sua mulher, Jill Davies, por exemplo, são canadenses, se conheceram no Brooklyn e muito frequentaram Berlim e Amsterdam, berços de cultura. Não encontrando uma casa a seu gosto, optaram por dois galpões caindo aos pedaços, onde hoje brilha um piso de bambu, entra muita luz natural e uma estante de fórmica azulão, que mais parece uma escultura de Donald Judd, serve de display para obras de arte. São de Houston os seus marchands e Ekhart dá aulas na Glassell School of Art. Por que então não haveriam de morar no Texas?

LOUCURA

Já na casa de Lucy e Steve Wrubel, ele fotógrafo e ela uma DJ requisitada, por trás da fachada calma e pura, impera uma aparente loucura. No hall de entrada, uma parede grafitada e luzes de néon. O que vem depois, nessa torre branca de vários níveis e paredes de vidro, se pode enxergar através das aberturas da escada: o colorido vivo, justaposto ao humor e a achados curiosos, tudo comprado ou posto ali de impulso, num décor muito a ver com a personalidade dos donos da casa.

No cottage do marchand Hiram Butler, onde o piso é feito de cipreste bem escuro, a arte é de deixar museus com água na boca. Pendurado sobre uma porta, há uma litografia de Jasper Johns. E ocupando toda uma parede na sala de jantar, um tríptico de Rauschenberg. À entrada, junto a um aparador pintado de amarelo canário, uma fotografia da Roden Crater, de James Turrell, e no quarto, a xilogravura Big 5 de Jonathan Borofsky. Aos aficionados, deixo a sugestão da compra do livro para atiçar a imaginação e a fantasia. (www.mariaignezbarbosa.com).