De volta ao começo

Marcelo Lima - O Estado de São Paulo

Roda Viva é o nome da nova coleção de móveis da designer baiana Stephanie Andrade, que retorna a São Paulo após temporada de estudos em Milão

A designer Stephanie Andrade com sofá e móveis da sua mais recente coleção

A designer Stephanie Andrade com sofá e móveis da sua mais recente coleção Foto: André Toledo Araújo

O mestrado no Instituto Marangoni, em Milão, colocou para sempre o design na rota da arquiteta Stephanie Andrade. “Lá tive a oportunidade de trabalhar com diversas marcas e, diretamente, com diretores de arte e profissionais que eu jamais sonharia encontrar”, conta ela que, desde o ano passado, voltou ao Brasil determinada a solidificar sua carreira como designer e paralelamente atuar como arquiteta. Sua mais recente coleção, Roda Viva é símbolo deste movimento de retorno. São três banquetas, um banquinho, um banco e um sofá que empregam madeira curva em sua formulação. À primeira vista, um trabalho simples, mas ainda de difícil execução. “Tive de contratar um profissional que fazia volantes de carro de madeira. Tudo para melhor explorar o círculo, forma geométrica que me fascina e que considero a síntese desta coleção”, como afirmou ela nesta entrevista ao Casa. 

Detalhe do trançado em sua cadeira de madeira curva

Detalhe do trançado em sua cadeira de madeira curva Foto: André Toledo Araújo

Qual o conceito por trás da linha Roda Viva? 

Penso que ela simboliza o meu retorno ao Brasil, mas, mais do que minha volta, acho que oferece uma interpretação do que sou, ou seja, uma mistura de muitas culturas. Sou baiana, batizada, mas no dia de Yemanjá. Quando ainda era pequena, minha família saiu de Salvador para morar na Europa, depois fui estudar em Milão e agora retorno a São Paulo. Então cresci nessa mistura de candomblé, barroco, renascimento, modernismo. A coleção nasce desse mix cultural. De sincretismo baiano e de racionalismo europeu. Do uso da fibra natural, mas a partir de conceitos da Bauhaus, só que abrasileirados. Do manual que se torna geométrico.

A partir de quais materiais e técnicas artesanais ela foi desenvolvida? 

As peças foram feitas de madeira tauari torneada à mão, com a viva intenção de fazer referência à nossa tradição artesanal, porém com um toque de leveza, geometria e movimento não muito usuais em móveis do tipo. Além do couro e da fibra trançada de tucum, que vem do nordeste, e representam a riqueza dos insumos naturais do nosso País.

Quais questões movem sua criação hoje?

Muito se fala da exploração do geométrico, do desenho gráfico que sugere uma terceira dimensão. Porém, devo admitir que meu tema preferido hoje é o design circular, ou seja, a vertente da produção contemporânea que se propõe a afetar o mínimo possível o meio ambiente, e a diminuir ao máximo a produção de resíduos, visando as futuras gerações. Neste sentido, o plástico representa um problema concreto. Ele é fixo, rígido, e, apesar de parecer menos nocivo do que uma cidade toda feita de concreto, com o ritmo atual de consumo acabou se tornando um dos nossos principais problemas ambientais. Daí a importância de repensar seu uso e descarte.

 

Uma das cadeiras da coleção Roda Viva

Uma das cadeiras da coleção Roda Viva Foto: André Toledo Araújo