De dentro para fora

MARCELO LIMA - O Estado de S.Paulo

Buscar a qualquer custo a simbiose entre os ambientes interno e externo é a aposta da Casa Cor 2009

Existe um tempo - já com registro no calendário oficial de eventos da cidade - em que todas as atenções se voltam para o Jockey Club de São Paulo. Por certo não para acompanhar nenhum grande prêmio de turfe. Mas mesmo para quem guarda pouca intimidade com o mundo da decoração foi difícil passar por lá, nos últimos dois meses, sem sentir ao menos uma pontinha de curiosidade diante do movimento intermitente que se insinuava pelas bandas do hipódromo paulistano.

Pois a hora chegou e em breve saberemos quem será bem-sucedido na árdua tarefa de se sobressair entre 170 dos mais renomados arquitetos, paisagistas e designers de interiores do País. O que será moda - o que pegou - e o que merece ser para sempre banido do vocabulário do décor. As cores do momento. Os objetos do desejo. Os últimos recursos tecnológicos aplicados ao espaço da casa. Os novos talentos. E aqueles que continuam a apontar caminhos.

Com o objetivo de se estabelecer como o maior evento do segmento das Américas, a Casa Cor 2009 abre as portas, depois de amanhã, em meio a dimensões ampliadas e muita expectativa. Pela primeira vez arrisca o formato 3 em 1. Uma única locação vai abrigar três mostras: Casa Cor (voltada para o âmbito doméstico), Casa Hotel e Casa Kids. É decoração que não acaba mais. Na prática, um complexo labirinto de ambientes, showrooms, jardins, restaurantes e lojas. Para os visitantes, será necessário, além de disposição, concentração para não perder o foco. "Nosso objetivo é agregar mais eventos ao próprio evento", diz Ângelo Derenze, atual presidente da Casa Cor. Ao todo, são 124 espaços, construídos por 2 mil profissionais, em 44 mil m², prontos para receber, até 14 de julho, um público estimado de 150 mil visitantes.

Um gigantismo que, a bem da verdade, comporta seus riscos. Dá vazão, muitas vezes, à sensação, bastante frequente, de se estar diante de mais do mesmo. De ambientes "prêt-à-porter", corretos, mas previsíveis, produzidos nas cores da estação (a quem interessar possa, o cinza surge como o novo bege). Mas muito aquém da proposta original do evento, que era de privilegiar o exclusivo. De se constituir, enfim, no desfile "haute couture" da decoração.

Por outro lado, um número maior de participantes pode estar colaborando para uma renovação dos quadros do setor. Lado a lado com profissionais consagrados - que raramente derrapam em suas criações -, a nova geração vê no evento uma possibilidade única de contato com o grande público e sobretudo com a mídia especializada. Sabe bem disso, trabalha inspirada e o resultado salta aos olhos.

No mais, o ecletismo estético continua sendo o denominador comum a todos os participantes. Nem mesmo a questão da sustentabilidade fugiu à regra. Tomada como tema desta edição - quando de fato deveria ser um procedimento obrigatório - na imaginação dos decoradores, a ideia da preservação ambiental acabou por ensejar as mais diversas reações: da total indiferença ao projeto engajado, passando por toda uma série de alusões mais ou menos pertinentes à reciclagem e ao uso consciente da água e da energia elétrica.

Nesse sentido, digna de nota é a primazia quase absoluta do uso da madeira de demolição como opção de revestimento para pisos e paredes. Uma verdadeira febre entre os decoradores, só superada pelo uso intensivo de pedras e rochas, dentro e fora da casa. Seja como revestimento ou elemento decorativo - em um ambiente, diga-se de passagem, uma rocha pesa nada menos que três toneladas.

Não por acaso a edição 2009 da mostra parece sinalizar uma volta às origens. Em seus melhores momentos, os ambientes surgem secos, pouco povoados por móveis e objetos, quase em simbiose com exteriores mais agrestes e bem mais tropicais. Sob direta inspiração do mestre Burle Marx, considerado o mais famoso paisagista do século 20, homenageado desta edição pelos seus cem anos de nascimento.

É a hora e a vez do étnico, do primitivo, do artesanal, dos materiais empregados em estado bruto - palhas, couro, lã, ferro, cimento -, dos espelhos d?água, das cascatas e afins. Em outras palavras, de tudo que possa propiciar contato, real ou idealizado, com a natureza.

Entre os designers, é nítida a preocupação em levar o visitante para algum lugar exótico, distante do seu mundo real, seja um bangalô à beira-mar, uma cabana no campo ou uma tenda oriental. Viabilizando a impressão de imagens sobre os mais diversos suportes, a tecnologia também mergulhou com tudo na atual onda verde: por toda a mostra, é farta a oferta de referências ao mundo natural.

Fato é que, diante de um cenário econômico ainda incerto - e, portanto, não apropriado a grandes ousadias estéticas -, a possibilidade de evasão da realidade sugerida por muitos dos projetos tem tudo para cair nas graças do grande público. E, mais uma vez, a Casa Cor promete botar seu bloco na rua em grande estilo, reafirmando sua posição líder de grande vitrine da decoração nacional. Consciente de que, durante o nevoeiro, o melhor a fazer ainda é levar o barco devagar.