Criação ímpar

- O Estado de S.Paulo

Em São Paulo, arquiteto Gaetano Pesce fala sobre a necessidade de ser original

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Reportagem de Marcelo Lima

Fotos de Marina Malheiros/AE e divulgação

 

Uma imagem vale mais que mil palavras. Apesar de recorrente, poucas frases ilustram com tamanha precisão o universo do designer e arquiteto italiano Gaetano Pesce. Nascido em La Spezia, estudou arquitetura em Veneza, em 1939. Depois de morar em várias cidades da Europa, se estabeleceu em Nova York, em meados dos anos 80.

 

Aclamado pela crítica, seu trabalho, de forte teor expressivo, encontrou plena acolhida em coleções particulares, galerias e museus. Mas também em muitas casas pelo mundo graças a móveis como a Donna, de 1969: um manifesto contra a opressão feminina transformado em poltrona, best seller pela B&B Italia. Na última Semana de Design de Milão, em abril, mais uma vez ele acenou com provocação e rebeldia, apresentando os mais ousados lançamentos do Salão do Móvel: a série de estofados Gli Amici, para a Meritalia.

 

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No início do mês,após conferência para 300 arquitetos em São Paulo, Pesce falou com exclusividade ao Casa&, entre outras coisas, sobre os planos de construir um edifício no Brasil e sua casa na Bahia, onde passa alguns dias no verão. Leia a seguir trechos da entrevista.

 

Em 1996, uma exposição retrospectiva de seu trabalho apresentada no Centro George Pompidou, em Paris, recebeu o nome de "O futuro é agora". Passada mais de uma década, como o Senhor vê a cena internacional hoje?

No mundo complexo que vivemos o essencial é existir. Isso serve tanto para pessoas como para países. Muitos vivem, mas poucos de fato existem. Para se existir é preciso praticar a criatividade. Ser original. No caso do Brasil, o que encontrei aqui nesta visita, me faz crer que, muito em breve, o país estará no centro da cena mundial.

 

O que o leva a pensar assim?

Sinto que há por aqui uma maior energia, um maior comprometimento das pessoas no sentido de desenhar a história do país nos campos do design e da arquitetura. Uma vontade de fazer coisas originais e não mais meras cópias. É uma coisa que se sente de imediato e que me faz recordar a Nova York dos anos 80, quando lá cheguei.

 

Que projeto o senhor gostaria de realizar no Brasil?

Sem dúvida o da Torre Pluralista (projeto idealizado por Gaetano Pesce em 1990), na cidade de São Paulo. Um edifício de apartamentos, conceitualmente e fisicamente diverso, em que cada pavimento teria um desenho único, assinado por um arquiteto do Brasil ou do exterior. O aspecto final da obra seria imprevisível, como, aliás, é a vida. Mais que um edifício residencial, a torre se tornaria um símbolo de uma cidade culturalmente diversa e miscigenada como é São Paulo.

 

E isso seria possível?

Do ponto de vista construtivo, sem dúvida, apesar de que algo do gênero nunca foi feito no mundo. É apenas uma questão de coragem: de investir em uma arquitetura que comunica, em alto e bom som, que somos diversos, mas que, ainda assim, podemos estar unidos.

 

Mas diante de uma arquitetura que ainda se move pelo autoral, pelo assinado, essa ideia não é algo utópica?

Depende de como esse conceito for apresentado. A diversidade em si não representa um risco. Dependendo do ponto de vista, ela pode ser vista como um presente, pois é a partir dela que podemos afirmar nossa individualidade.

 

Falando sobre individualidade, não lhe parece paradoxal que o design, nascido para ser difundido e produzido em larga escala viva hoje um momento de "colecionismo", de peças únicas alcançando altos preços em leilões?

Na verdade, existe e não existe um paradoxo. De fato, no começo, o design surgiu como uma forma de resolver necessidades funcionais e ainda assim de ser um tipo de arte, útil. Acontece que, a idéia do "standard" hoje, além de não agradar a mais ninguém, está superada: por meio de processos industriais até bastante simples, podemos construir peças únicas, em grandes escalas. Assim, se torna possível franquear a um grande número de pessoas, produtos significativos e não banais. É o design de volta a suas origens, de ser uma arte útil. O que, convenhamos, não é pouca coisa, se levarmos em conta que apenas uma parcela mínima da população tem acesso ao que é produzido pela Arte e, claro, aos grandes leilões.

 

Na contramão do discurso das tendências, o senhor sempre optou por investir em originalidade em todas suas criações. Em termos financeiros, tem valido a pena?

Todo o processo criativo está definitivamente ligado a idéia de inovação, que acontece em três níveis: inovação na linguagem, nos materiais e nas tecnologias. Sem inovar nestes três campos não se pode falar em real originalidade. São eles que me interessam. Todos os demais fatores ocorrem em decorrência. Inclusive o sucesso comercial. Muitas das minhas criações, apesar de aparentemente ousadas, acabaram por se revelar um sucesso de vendas.

 

Em quais projetos o senhor trabalha neste momento?

No campo da arquitetura, no projeto de uma piscina em São Petesburgo, na Rússia, onde desenhei as áreas comuns de um condomínio. Ela terá o formato de uma enorme gota d’água. No design, em uma linha de calçados para a Melissa brasileira. Por ora, só posso dizer que será um modelo que poderá ser usado por homens e mulheres.

 

A sua última coleção de móveis, Gli Amici (os amigos) para a italiana Meritalia, representa um manifesto a favor do uso da imagem nos projetos. Por que, no seu ponto de vista, ela é tão importante no mundo contemporâneo?

Porque é a ferramenta de comunicação mais efetiva a nosso alcance. É importante não fazer do design um exercício de abstração geométrica, que, infelizmente, a arquitetura globalizada insiste em perpetuar. Como uma linguagem que parece ignorar as lições da pop art. Espero que os jovens designers se deem conta da importância da imagem para se estar mais próximo da sociedade.

 

É surpreendente a forma como o senhor se apropria de matérias-primas desconhecidas como plásticos de última geração e resinas sintéticas. Como o senhor tem acesso a materiais tão exclusivos?

Sempre fui um curioso. Desde os tempos de estudante, nunca me contentei em utilizar o existente. Sempre procurei deslocar materiais de seu contexto original. Com o tempo, minha curiosidade me levou a explorar as indústrias química e farmacêutica e desvendar seus segredos. Continuo na pesquisa, mas devo afirmar que hoje eles me mantém sempre bem atualizado.

 

Para Gaetano Pesce, qual o objetivo último do design?

Creio que usar a criatividade para criar bens que sejam úteis a sociedade e que atendam a seus anseios. Não existem outros. Não devemos perder a conexão com a sociedade, trabalhando por razões acadêmicas, estéticas ou formais. O risco é acabar marginalizado da vida real.