Cozinha de cinema

Penelope Green - O Estado de S.Paulo

O designer inglês Christopher Peacock faz sucesso nos EUA com suas Scullery Kitchens

É um 1º de abril nublado e frio, e Chisthopher Peacock, designer inglês de cozinhas, dá um passeio pela cidade que foi tão boa com ele: Greenwich, em Connecticut. Seu Audi azul-escuro desliza pela Round Hill Road, em frente de châteaux normandos de pedra e town homes com fachadas imitando telhas, pequenos castelos da elite financeira que valem de US$ 6 a US$ 20 milhões - e nas quais ele se gaba de ter instalado muitas de suas cozinhas brancas, ao lado de riquíssimas coleções (a maioria provavelmente britânica) de arte contemporânea. Numa casa georgiana de pedra, na área de Baldwin Farms, pintores dão os últimos retoques em um dos best-sellers de Peacock, que ele chama de scullery kitchen - do francês ecuelerie, pequeno cômodo adjunto à cozinha, no qual se lavam pratos, entre outras tarefas - e foi inspirada numa casa que viu anos atrás, em Londres. Imitada por todos, de decoradores de sets cinematográficos a construtores locais, passando por fornecedores como Wood-Mode, Pottery Barn e Restoration Hardware, essa cozinha branca com os audaciosos equipamentos cromados, mármore branco, estética pré-Guerra e preço de seis algarismos, fez de Peacock não apenas famoso, mas também uma marca. Sua empresa de 15 anos faz, segundo ele, mais que apenas armários: entrega e instala cerca de 200 cozinhas por ano, para clientes e construtores tanto nos EUA como na Austrália, Inglaterra, França e Israel, entre outros países; e mais de 100 quartos, banheiros, closets, bibliotecas, enotecas e despensas, no mesmo período. Apesar da crise no setor de construção e no mercado financeiro, as encomendas aumentaram 3% no primeiro trimestre, assegura. Aposta na autenticidade Desde abril passado, ele começou a vender as tintas Christopher Peacock - 90 nuances de cores - desenvolvidas pela Fine Paints of Europe (e vendida por US$ 125 dois terços de galão, uma das tintas mais caras do mercado). Também passou a comercializar móveis Christopher Peacock, luxuosamente monásticos e ligeiramente asiáticos por meio da Peacock & Beale, loja sofisticada que ele e a decoradora Connie Beale abriram na Avenida Putnam, em Greenwich, no fim de 2007. "Freqüentemente, objetos de luxo dizem às pessoas o que elas querem ou não querem", diz Scott Salvatore, decorador da alta sociedade de Manhattan, que entregou à clientela nove cozinhas Peacock nos últimos dez anos. "E, algumas vezes, eles não querem. Por isso, acho que Christopher realmente tocou no nervo. Essas cozinhas italianas são sexy pra caramba." Faith Popcorn, especializada em identificar tendências, acredita que as marcas que se dão bem no mercado são as que vendem autenticidade. "Esse é o tema atual. Embora novas, as cozinhas Peacock são ?lidas? como antigas. Exuberantes com suas pinturas cremosas, estilo Gosford Park, e equipamentos cromados e prateados, os modelos da Peacock?s Scullery, Refectory and Private Collection parecem ter acertado o alvo entre consumidores que anseiam por história e origem", diz. Como a notável old house projetada por Robert A. M. Stern (com quem Peacock tem colaborado), a cozinha é uma espécie de carro de luxo com estilo retrô. "Meu marido queria uma cozinha Christopher Peacock, ponto final", revela Lisa Skinner. O modelo Scullery chegou à casa nova, em Greenwich, em setembro do ano passado, sob os protestos do construtor, que queria reproduzir uma cozinha Peacock e prometia fazê-lo a um preço menor. Lisa lembra que seu marido, Chip, "continuou insistindo na original, dizendo que, quando se gasta um monte de dinheiro, deve-se ir a um especialista. E não era porque ele queria ostentar uma grife", garante. "Ele dirige um modelo Defender, de 10 anos... não é do tipo Ferrari." Deve ter pesado, segundo ela, o fato de terem passado nove anos em Londres, bebendo da estética britânica. Milton Pedraza, chefe executivo do Luxury Institute, empresa de pesquisa de mercado, diz que a cozinha branca inglesa dá uma sensação de pureza e pedigree. "Pessoas que têm história curta, como os americanos, adoram coisas com longa linhagem. Isso nos imbui de um certo halo."