Convertida ao modernismo

Maria Ignez Barbosa - O Estado de S.Paulo

Filha da aristocracia do café, Olívia Guedes Penteado viveu entre intelectuais e fez história na arte do refinamento

Foi depois de uma viagem à Europa, no início dos anos 20, que Olívia Guedes Penteado se converteu ao modernismo. Nascida em Campinas em 1872, neta dos Barões de Pirapitinguy, da aristocracia do café, foi educada em meio à elite da Velha República. Com o marido, Ignácio Penteado, que morreu aos 42 anos, já havia morado cinco anos em Paris, onde o casal possuía um elegante apartamento na Avenue Hoche. Além de andar a cavalo no Bois de Boulogne, eles recebiam em casa figuras como os poetas Olavo Bilac e Alberto de Oliveira, que passavam temporadas sorvendo cultura nessa que era então a meca das artes e do refinamento.

 

Só depois de viúva é que D. Olívia veio a conhecer, em Paris, Léger, Picasso, Brancusi, Cocteau e passou a conviver com aqueles que seriam seus amigos para sempre, como Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Mário de Andrade e Villa-Lobos.

 

Ela logo percebeu que sua casa em São Paulo, um palacete nos Campos Elísios, projetado por Ramos de Azevedo, com terminações em ferro forjado, cobertura de vidro na entrada principal e interiores decorados com móveis europeus, objetos rococó, muito petit point, tapetes persas e Aubussons, era coisa do século anterior. O belo Léger comprado na Galeria de L’Effort Moderne, Compotier de Poires, cuja chegada a São Paulo foi festejada com uma procissão nos jardins de sua mansão, nada teria a fazer em seus salões belle époque.

 

De volta a São Paulo em 1924, encomendou a Lasar Segall a pintura do teto de um pavilhão que resolveu construir no lugar das cocheiras. Ali, num ambiente minimalista e colorido, decorado com móveis, esculturas e quadros contemporâneos, D. Olívia passou a receber os amigos intelectuais para encontros semanais, sem no entanto abandonar o chá das terças-feiras e os grandes jantares nos salões de décor clássico frequentados pela elite paulistana.

 

Na primeira viagem de Blaise Cendrars ao Brasil, D. Olívia não só recebeu o poeta francês em sua fazenda Santo Antônio como ofereceu-lhe um grande jantar em São Paulo, onde o idioma francês fluía e o artista ouviu seus versos declamados. Uma crônica de 18 de fevereiro de 1924 no Correio Paulistano registrou que "a sociedade paulista, que tem em D. Olívia Guedes Penteado uma das figuras de mais fino relevo e mais aristocrática tradição, festejou anteontem o notável escritor francês Blaise Cendrars, que teve na fidalga residência da Rua Conselheiro Nébias um acolhimento de excepcional elegância... e de inexcedível fidalguia e intelectualidade".

 

Desde muito admirado e "modelo" para nossos poetas modernistas, Blaise Cendrars, aceitou convite de Paulo Prado para vir ao Brasil em 1924. Foi a primeira de muitas viagens ao país e o início de uma correspondência com amigos brasileiros que se estendeu até sua morte. À D. Olívia, por exemplo, com bela dedicatória, ele ofertou os manuscritos de Kodak, um de seus muitos livros.

 

Padroeira do modernismo. Tal como o amigo Paulo Prado, D. Olívia se transformou numa grande colecionadora de arte. Seu acervo tinha não só o já citado Léger, como o fantástico Le Polichinelle lisant "Le Populaire", de Picasso; a maravilhosa escultura Négresse Blonde, de Brancusi, hoje no MoMa, e obras de Delaunay, Foujita, Cézanne, Degas, Marie Laurencin, Tarsila, Brecheret, Portinari e Di Cavalcanti. Foi mais do que uma "padroeira dos modernistas". Acolhedora e generosa com os amigos que a ela se referiam como "Nossa Senhora do Brasil", D. Olívia não hesitava em abraçar as causas as mais diversas.

 

Não teve medo quando, em 1924, São Paulo foi tomada por canhões das forças federais contra os revoltosos de Isidoro Dias Lopes. Blaise Cendrars, um veterano da 1ª Guerra Mundial, onde perdera um braço, tratou de orientá-la sobre medidas de segurança para proteger a casa e a coleção. O poeta, no entanto, assustado, não titubeou em se refugiar na fazenda Dona Veridiana, a convite de Marinette e Paulo Prado, a quem dedicou seus Contos Negros, recomendando que fossem lidos "à luz de velas/ no fundo de uma cave/ em tempos de revolução".

 

Na Semana Santa desse mesmo ano, de bom humor e sem medo dos trens da Central, D. Olívia participou do grupo que acompanhou o poeta a Minas Gerais. Com René Thiollier, Tarsila do Amaral, Mário e Oswald de Andrade e seu filho Nonê, viram Blaise Cendrars se encantar com obras de Aleijadinho, deficiente físico como ele.

 

Se a visita dos modernistas brasileiros, tão vanguardistas, a locais históricos do nosso passado soasse como um contrassenso, na verdade não o era. Imbuídos de si mesmos e bastante alheios à realidade brasileira, viam nesse voltar-se às origens algo de exótico e original.

 

Sensibilizada com o estado de abandono das igrejas, D. Olívia resolveu criar a Sociedade dos Amigos dos Monumentos Históricos do Brasil. Blaise Cendrars dispôs-se a redigir os estatutos e, em um "chá das cinco" na casa dela, depois de discutidas as linhas de atuação da associação, não só os que foram a Minas tornaram-se membros, mas também o recém-empossado presidente do Estado, Carlos de Campos, José Carlos de Macedo Soares e Carolina, filha de D. Olívia, com o marido Goffredo da Silva Telles.

 

As viagens de "descobrimento" do Brasil não se restringiram a Minas. Na linha turismo cultural, o grupo fez um carnaval no Rio "au grand complet" e, em 1927, uma viagem à Amazônia, onde subiram o Solimões até Iquitos, no Peru. As lembranças dessas viagens estariam nas poesias Pau Brasil, de Oswald de Andrade, e Noturno de Belo Horizonte, de Mário de Andrade, e em pinturas de Tarsila do Amaral.

 

D. Olívia, cujos encantos são louvados por Pedro Nava em suas memórias, foi por muitos descrita como sensível, bela, boa e de uma elegância soberana. Há quem diga que era tagarela e comilona. Ou que tivesse opiniões fortes e ideias progressistas. O fato é que nunca deixou de viver intensamente. Vestia Paul Poiret e teve um banheiro em sua casa paulista decorado no estilo art déco por Dominique, uma francesa do círculo do costureiro conhecido por retirar o espartilho da roupa das mulheres. D. Olívia envolveu-se também na Revolução Constitucionalista de 32 ajudando os necessitados e estimulou a candidatura de Carlota Pereira de Queiroz, a primeira mulher a se eleger deputada no Brasil.

 

Em 1934, essa paulista que tão bem transitou entre dois séculos e duas estéticas, morreu de apendicite supurada. Um ano depois, o jornal Le Jour publicou artigo de Blaise Cendrars, En Transatlantique dans la forêt vierge, a ela dedicado.

 

É de lamentar que a mansão paulista onde morou, com tantos ambientes que hoje encheriam os olhos de decoradores e estudiosos, tenha sido demolida em 1943 para permitir a ampliação da Avenida Duque de Caxias.

 

(www.mariaignezbarbosa.com).