Consciência ambiental traz olhar mais natural para decoração

Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

Em evidência no mundo do design, a consciência ecológica determina a criação de um habitat simples, íntimo

Uma febre, ao que parece bastante contagiosa, parece ter tomado de assalto o mundo do design. Capaz de promover mutações rápidas - e se espalhando por cadeiras, sofás e até jogos de chá -, ela já foi devidamente identificada, mas não pára de produzir novos casos. Trata-se da consciência ambiental: o atual motor das inovações que fazem girar as engrenagens do design. Mas não somente. Tomada em sentido amplo, da preocupação com o planeta, deriva também do desejo de aprimorar a qualidade de vida do indivíduo e, com ela, a necessidade de se construir um habitat o mais natural possível. De preferência, na companhia de poucos e bons móveis. Simples e éticos na sua construção, mas intimamente relacionados com o bem-estar global de seus usuários.Nesse sentido, não surpreende que a Cappellini, uma das grandes lançadoras de moda no setor do móvel, tenha promovido uma guinada conceitual em sua linha, até há pouco concebida com matérias-primas de ponta e agora às voltas com mesas de cerâmica e armários pintados à mão. Ou ainda a Hay, que incluiu entre seus lançamentos deste ano uma cadeira construída a partir de garrafas recicladas. Cai por terra, assim, a idéia de uma evolução pautada pela transformação permanente das matérias-primas, gerando tendências unifica-doras. Cada vez mais out of the box, o design se pretende hoje exclusivo, seja produzido em grandes ou pequenas séries - que, como regra, procuram preservar traços do manual nos produtos - ou em ateliês, aproximando-se deliberadamente do objeto de arte. Como acontece, por exemplo, com os futurísticos sofás desenhados pela iraquiana Zaha Hadid para a Sawaya & Moroni: móveis que, muito mais do que obedecer às necessidades do mercado, representam um depoimento conceitual da arquiteta e têm, no espaço das galerias, ao contrário das lojas, seu destino certo.Sintonizada com os novos tempos, a empresária Patrizia Moroso prefere deixar que seus móveis falem por conta própria. "Longe se vão os anos em que a nossa empresa era conhecida apenas pela originalidade dos sofás. Ela ainda é, mas hoje muito mais pelo perfil híbrido de nossa coleção", diz ela, visivelmente satisfeita com o perfil globalizado e multicultural do catálogo.Técnicas revisitadasUm impressionante patchwork de fazeres artesanais e industriais, capitaneado pela designer espanhola Patricia Urquiola e pelo inglês Ron Arad, mas sempre aberto à influência de designers de todas as latitudes. Sobretudo de profissionais interessados em reabilitar técnicas do passado. Caso, por exemplo, do holandês Edward Van Vliet, que acaba de desenvolver para a empresa uma série limitada de móveis que têm como base técnicas de tapeçaria do Marrocos e da Tailândia, incluindo tapetes, estofados e luminárias. Um trabalho que sintetiza o atual enfoque da empresa, interessada em misturar passado e presente, tecnologias avançadas e procedimentos artesanais.Terreno fértil para a pesquisa, os processos tradicionais de estofamento foram também alvo de criação para os designers. O capitonê, por exemplo, ressurgiu em diversas coleções. Como nas poltronas, de Arik Ben Simhon, israelense que, em suas produções, flerta abertamente com a moda. Um tema recorrente no aniversário de 40 anos do pufe Sacco - ícone dos anos 60 e símbolo do móvel versão prêt-à-porter, mas que, em Milão 2008, ganhou ares - e cotação - de alta costura (marcelo.lima.antena@estadao.com.br).