Conheça o estilo Japandi, que preza pelo minimalismo e o aconchego

Ana Lourenço - O Estado de S.Paulo

Seguindo a linha dos conceitos Wabi Sabi e Hygge, decoração mistura elegância da Escandinávia com simplicidade japonesa

Paleta de cores neutras, móveis funcionais com textura e valorização de objetos sentimentais. Eis, em resumo, o estilo ‘Japandi'

Paleta de cores neutras, móveis funcionais com textura e valorização de objetos sentimentais. Eis, em resumo, o estilo ‘Japandi' Foto: Elton Rocha

“A pandemia está nos alertando para algumas premissas que são essenciais para continuarmos nossa jornada na Terra. E a grande lição vem, de fato, do Japão, e dos países nórdicos”, reflete Lívia Pedreira, diretora superintendente da Casacor. A concretização de algumas dessas lições está no novo estilo de decoração ‘Japandi’, nome que deriva das palavras Japan (Japão em inglês) e Scandi (um apelido para Escandinávia).

À primeira vista é difícil associar duas regiões de culturas um tanto diferentes. No entanto, elas compartilham de princípios parecidos, com base em dois conceitos muito importantes para cada região: Wabi Sabi e Hygge. O primeiro é uma filosofia japonesa que valoriza o tempo e as cicatrizes que ele deixa. Por isso mesmo, é muitas vezes traduzido como a beleza da imperfeição. Já o Hygge, é o conceito nórdico de conforto e bem-estar e, para muitos, o segredo da felicidade de países como a Dinamarca

No entanto, transformar em estética conceitos tão tradicionais pode ser perigoso. “O verbo ‘ser’ é muito ocidental, no sentido de definir as coisas numa visão ontológica”, explica Michiko Okano, Professora da História da Arte da Ásia na UNIFESP. Assim, o Japandi é entendido como um diálogo, algo híbrido.

“Uma fusão perfeita para criar uma casa ideal'', resume o decorador de interiores espanhol Sébastien Robert. Seu projeto, localizado no distrito de Les Corts, em Barcelona, condensa bem o estilo. “Para aplicar a tendência, tivemos de fazer uma reforma completa na casa. Pintamos as paredes de cinza e os pisos e tetos de branco. Em seguida, mobiliamos os quartos, utilizando elementos naturais”, conta ele que pretende alugar o espaço. 

A valorização da madeira e de outros materiais com textura, como a palha, é perceptível logo na entrada do apartamento de Sébastien Robert 

A valorização da madeira e de outros materiais com textura, como a palha, é perceptível logo na entrada do apartamento de Sébastien Robert  Foto: Elton Rocha

O estilo, como um todo, realça a importância que a casa tem em nossa vida, fato descoberto por muitos durante o período de isolamento. “O desejo das pessoas de buscar ambientes mais aconchegantes não vem, necessariamente, de querer transformar a casa inteira e colocar tudo novo, mas sim fazer pequenos ajustes de formas simples”, pontua a designer de interiores Karla Amadori.

Nos países nórdicos, aproveitar a casa é quase uma premissa. Durante o inverno, por exemplo, além das temperaturas abaixo de zero os dinamarqueses recebem poucas horas de sol por dia, o que faz com que o tempo dentro de casa seja muito maior. 

Juntando o conceito japonês de encontrar beleza na simplicidade e o estilo de vida nórdico que preza pelo bem-estar, Japandi é ideal para os tempos atuais

Juntando o conceito japonês de encontrar beleza na simplicidade e o estilo de vida nórdico que preza pelo bem-estar, Japandi é ideal para os tempos atuais Foto: Elton Rocha

Por isso, o Japandi valoriza a iluminação natural e pede por comodidade. Móveis com designs simples, paleta de cores neutras e valorização dos materiais naturais como a madeira, palha, bambu e cimento. “A estética Wabi Sabi tem a ver, de grosso modo, com a questão da rusticidade e com a questão dos vestígios do tempo, principalmente se a gente pensar no tempo do material utilizado para a mobília, no caso da decoração, e o aspecto natural da matéria”, ensina Michiko.

Nessa linha, também existe a busca por uma decoração mais autêntica de peças artesanais, com imperfeições e marcas únicas, e um minimalismo proposital, ou seja, os existe uma razão de estarem onde estão. “Os objetos no Japão - tanto o mobiliário quanto a decoração da casa - têm uma importância muito grande. E o espaço não é só um suporte, ele também interage com a vida cotidiana, algo muito dinâmico”, diz a arquiteta Marina Lacerda.

Em geral a casa japonesa é medida pelo tatame, e eles são facilmente arranjados para que os ambientes se transformem e tenham outras funções. Uma sala de jantar pode virar um dormitório se trocar a mesa pelo futon, por exemplo. Por isso, a ideia de ter objetos leves, fáceis de manusear e peças baixas, todos aspectos que vem da arquitetura japonesa tradicional.

Projeto do espanhol Sébastien Robert valoriza peças com design simples e linhas retas. Além de uma clara fusão do estilo japonês e escandinavo

Projeto do espanhol Sébastien Robert valoriza peças com design simples e linhas retas. Além de uma clara fusão do estilo japonês e escandinavo Foto: Elton Rocha

“O próprio tatame, por exemplo, é uma planta seca que você traz como elemento do piso e você tem de trocar depois de um certo período. Daí vem a estética da efemeridade, da transitoriedade, de você valorizar esse momento em que esses materiais podem nos trazer conforto”, explica Michiko. Isso também é visto nas paredes, que normalmente são lisas. “A ideia de pendurar quadros é algo mais ocidental”, completa Marina. 

Trazer materiais da natureza e sentimentais para dentro de casa, pode ser entendido como uma tendência do momento atual, muito bem valorizada pelo Japandi. “A gente vive numa sociedade muito capitalista, consumista e estamos numa época em que há uma necessidade de voltar os olhos para a relação do homem com a natureza. Nesse sentido, ter uma decoração que dialoga com a consciência dessa relação é algo muito relevante para o ser humano”, diz a professora da Unifesp.

Com raízes na tradição, o Japandi surge como novo. Isso porque a maioria das vezes traz, em si, uma transformação do passado, dificilmente sendo algo completamente novo. “Seria quase que insano se a gente fechasse os olhos para tudo que a gente já produziu. A gente está em um cenário de muita insegurança, para dizer o mínimo. Não só pela pandemia, mas toda essa transição digital, da vida ganhando mais aspectos virtuais e não tão reais, então a gente volta no passado, como se precisasse trazer nossa humanidade que está presente lá atrás”, diz Lívia.