Como se fosse uma deli

Bete Hoppe - O Estado de S.Paulo

Andrea Kaufmann, da AK Delicatessen, vive em uma casa cuja cozinha é ponto de encontro da família e dos amigos

A culinária lhe é familiar desde criança, mas a mãe, Anita, só permitiu que ela colocasse - literalmente - a mão na massa aos 7 anos. "Lembro de experimentar o tempero e modelar a massa do bolinho de peixe, o guefilte fish, uma das especialidades judaicas que minha mãe preparava", conta a chef-pâtissier Andrea Kaufmann, dona da AK Delicatessen, em Higienópolis. Adolescente, lia compulsivamente livros de culinária, além de ser a cozinheira oficial nas viagens com amigos. Casou-se em 1999, mesmo ano em que se formou em publicidade na Faap. Porém, a primeira refeição que preparou para o marido, Pablo, no apart-hotel onde morou por um ano, foi um desastre. "Coloquei vinho tinto no salmão, o que não combina! O arroz negro ficou duro e o purê, empelotado", lembra, com humor. Cansada do "excesso de ego da publicidade", em 2002 partiu para o trabalho voluntário na ONG Cidade Escola Aprendiz, ensinando culinária para crianças, enquanto tirava o diploma de padeira no Senac. "Na metade do curso fui contratada pelo bufê PB Gastronomia", conta Andrea. "Foi ali que a gastronomia realmente começou a fazer parte da minha vida." A gravidez, em 2003, levou-a de volta à cozinha de casa, já no atual endereço, em Pinheiros. "Dava aulas-jantares de três horas, ensinando pratos rápidos, mas com ingredientes e apresentação sofisticados, como a torta musse de marzipan", diz. Nessa época, a cozinha era ponto de encontro dos amigos e familiares. "Sempre gostei de receber aqui", diz. O ambiente é informal, com guarda-louça de madeira pintado de azul, mesa mineira de madeira maciça (peça de peroba, com 1,50 m x 0,90 m e duas gavetas, R$ 800, no Casarão Antiquário) e cadeiras vermelhas estilo anos 60 (modelo Sixties, R$ 199 cada uma, na Tok&Stok) sobre o piso de ladrilho hidráulico (modelo decorado, a partir de R$ 70 o m², sob encomenda, mínimo de 2 m², na Fábrica de Ornatos Nossa Senhora da Penha). Gabinetes com portas de correr de treliça estão sob as bancadas de granito cinza e, nas paredes, há prateleiras de alvenaria e uma faixa de lascas de azulejo branco desenha o frontão da pia. Receitas judaicas Vez por outra, a reunião acontece na varanda ao ar livre, nos fundos. "Meu marido pilota a churrasqueira e eu preparo paella, principalmente de frutos do mar. São pratos comunitários, que aproximam as pessoas", justifica Andrea. No dia-a-dia, receitas judaicas, como arenque marinado, feijoada branca, torta de maçã, cheesecake e, claro, pães. "Também faço muita massa", diz. A prova é a coleção com mais de 100 latas de extrato de tomate italiana empilhadas. "É a minha releitura das sopas Campbell, de Andy Warhol", brinca. Amigos que viajam trazem temperos de presente, como o preparado para pizzas Alicante, muito usado na berinjela marinada. O desejo de ter o próprio negócio tomou forma depois de Andrea conhecer as delis (delicatessen) nova-iorquinas, em 2004. "Lá, elas quase sempre pertencem a judeus e servem o mesmo tipo de comida, o que não daria muito certo por aqui", diz. Ciente do que queria, Andrea conseguiu realizar seu sonho em maio de 2006, quando inaugurou o AK Delicatessen: mix de deli, restaurante e padaria judaica, com pitada contemporânea - hoje, é ali que os encontros entre amigos acontecem. "Foi a forma que encontrei para exercer minha criatividade e me comunicar", diz Andrea. "No restaurante ou em casa, o importante é que a comida tenha alma, que conte uma história."