Com tempero baiano

Ana Lourenço - O Estado de São Paulo

Arquiteto baiano homenageia seu estado na composição do espaço eleito a Melhor Sala da Casacor

Nildo José posa em seu ambiente. Acima, sombra de claraboia realça estante preenchida com garrafas de areia

Nildo José posa em seu ambiente. Acima, sombra de claraboia realça estante preenchida com garrafas de areia Foto: Zeca Wittner

Ao se pensar na Bahia é comum que imagens das coloridas fitinhas do Bonfim surjam imediatamente em nosso imaginário. Nada, no entanto, que seduza ao arquiteto Nildo José. Tentando fugir deste estereótipo, na sua Casa Dendê, apresentada nesta edição da Casacor, ele inova e dá luz à uma Bahia baseada em tons brancos e suas múltiplas texturas. “A ideia do espaço era realmente brincar com esta ideia do que as pessoas imaginam ser a Bahia. Então a gente apostou em uma Bahia elegante”, explica o autor da melhor sala de 2019, segundo o Prêmio Casa.

Enaltecido pela baiana do acarajé, pelos filhos de Gandhy e pelo Pelourinho original, o branco carrega uma importância histórica para o estado, segundo o arquiteto. “Todo esse universo é Bahia mas, sem ser aquela multicolorida que a gente está acostumado”, afirma. 

Dentre os destaques do ambiente, a estante repleta de garrafas de cachaça – que fazem referência ao passado colonial – preenchidas com areais de praias provenientes de um fornecedor baiano completam a paisagem litorânea. “Procurei utilizar uma coisa tão simples e tão corriqueira de forma inusitada. Transformar isso na grande sacada da sala relembra a beleza do simples. A gente esquece disso muitas vezes”, reflete o arquiteto. 

Confira as fotos da Sala Dendê, de Nildo José:

Denilson Machado
Ver Galeria 5

5 imagens

“Nildo fez muito bom uso da luz natural do espaço. Em todos os momentos do dia é possível perceber o jogo de luz que o ambiente ganhou”, afirmou o fotógrafo Tuca Reinés, um dos jurados deste ano, ao justificar o seu voto. De fato, iluminando o ambiente, uma claraboia protegida por um vidro especial controla a entrada dos raios solares. Por cima dele, um muxarabi, elemento arquitetônico típico da cultura árabe, mas bastante presente na arquitetura baiana, ajuda a peneirar a luz e, de quebra, aprimorar a ventilação. Tudo isso, segundo Nildo, para garantir a presença da luz do sol no local, relembrando a atmosfera nordestina, seus momentos de calor, mas também de brisa.

Com iluminação zenital e volumetria criando curvas pontuais, a Casa Dendê presta justa homenagem ao recôncavo baiano e à toda cultura que o cerca. Tudo isso, ainda, a partir de uma distribuição leve e despretensiosa, que inclui desde uma grande mesa de centro de pedra bruta, até cadeiras de grandes nomes do design. Sem falar dos tapetes e tecidos que levam forro de tear, tipicamente baianos, produzindo um visual natural e envolvente.

“Acho que é compromisso de todos nós na Casacor buscar o novo. Acredito ter sido este o motivo que levou meu ambiente ter sido tão reconhecido”, considera o arquiteto.