Com o rigor do cálculo

Bete Hoppe - O Estado de S.Paulo

Pedro Useche cria peças funcionais de madeira com formas que[br]testam os limites do equilíbrio

O uso da madeira é familiar a Pedro Useche. A novidade, na última linha de móveis para a loja Sette, é que ela provém de demolição. O designer não disfarça; ao contrário, tira proveito das imperfeições impressas nas pranchas de peroba - oriundas de vigamentos de telhados e fechamentos de pisos e paredes - para criar peças em que a matéria-prima mescla-se ora com ferro oxidado, ora com vidro, numa monocromia rústica proposital. "Para criar um padrão visual de continuidade, sem contrastes", explica.

A coleção Madeira de Demolição, composta de sete itens (preços sob consulta), entre poltrona, chaise, estante e mesas, traz a digital de Useche: encaixes, retas e curvas, em cálculos de milímetros, traduzem-se em peças funcionais, quase escultóricas, que exploram ao máximo a matéria-prima. O objetivo? A busca do equilíbrio. Sem abrir mão da estética e do conforto. A espreguiçadeira Jê, por exemplo, tem braços móveis, que se erguem para facilitar o sentar. E, graças ao ângulo em que base, pernas e braços se cruzam, é possível sentar na ponta sem medo de que a chaise tombe. A estante Módulo, desmontável, permite criar várias composições conforme a posição dos nichos horizontais. "Eles se encaixam e se apoiam em aberturas nas placas laterais, jogando com cheios e vazios. É um raciocínio arquitetônico", afirma.

DUAS PAIXÕES

A arquitetura, aliás, direcionou o trabalho desse venezuelano natural de Caracas para o design. A opção pelo Brasil deve-se a duas paixões: a obra de Oscar Niemeyer e Célia, mulher brasileira, que conheceu durante a pós-graduação em urbanismo nos Estados Unidos, em 1981. Assim que chegou ao Brasil, em 1984, Pedro Useche empregou-se numa construtora. O designer nasceu da necessidade. "Muitos clientes queriam que eu desenhasse móveis para solucionar problemas de espaço nas casas. A princípio foi um desafio", conta.

Ele tomou gosto e teve algumas peças premiadas, como a cadeira Mulher, que recebeu menção honrosa do Museu da Casa Brasileira em 1990, e o revisteiro Eixo 7, primeiro lugar na edição de 1998 do mesmo museu. Useche se decidiu, então, pela carreira-solo.

Em 2000, o designer inaugurou seu ateliê, no Morumbi, com apenas 30 peças. "Eu era bem louco. Só me preocupava com o resultado estético, não pensava muito na execução. Por isso, as peças eram caras. Mas vendia bem porque eram bonitas, equilibradas", lembra.

"Hoje, procuro entender bem as possibilidades técnicas do material para viabilizar a produção em larga escala", diz Useche. É a matéria-prima, aliás, que determina a forma final. "Nesse processo de testar os limites, o desenho vai se delineando normalmente, é uma consequência."

RESISTÊNCIA

O banquinho da linha Cinta, por exemplo, que lembra uma peça de quebra-cabeça em razão da ausência de arestas, é fruto dos testes de resistência com o multilaminado de madeira. "Fui envergando até o limite para não estourar e cheguei ao diâmetro de 50 milímetros", explica Useche. O ponto de partida da poltrona Pacman, uma referência ao antigo videogame come-come, foi o MDF. "Ripas de 6 milímetros de espessura, repetidas em toda a estrutura, resultam nessa forma que acompanha a curvatura do corpo humano."

Para Pedro Useche não vale o dito popular "casa de ferreiro, espeto de pau". Desde que fechou o ateliê (há cerca de um ano), sua residência, no Morumbi, funciona como uma espécie de galeria privativa para suas obras.

"Penso em reativar o escritório aqui, nos fundos do terreno. Mas sem pressa. Enquanto isso, não paro. Continuo criando peças sob encomenda e desenvolvendo parcerias com diferentes empresas. É bastante estimulante."