Com o jeito da dona da casa

Fernanda Medeiros - O Estado de S.Paulo

Em 100 m2, Maria Amália Schmidt tem tudo o que mais gosta: obras de arte, imagens de santos e tapetes

Maria Amália Schmidt de Oliveira recebeu o Casa& com a mesa pronta para o chá. Hábito cultivado por quem não dispensa o brinco de pérolas, nem a sarja para revestir o sofá. Aos 52 anos, é - como ela mesmo define - alguém que dá valor ao que realmente merece. Arquiteta especializada em tapeçarias antigas, há mais de 10 anos representa no Brasil a Galerie Chevalier de tapetes. Trocou um apartamento três vezes maior por este de 100 m², em que vive nos Jardins."Escolhi por causa do terraço", diz. A varanda é o elo de ligação entre as salas e o quarto principal da casa. É lá que está a pequena mesa de refeições e o que Maria Amália Schmidt chama de "santuário" - presos à parede, um Santo Antônio de madeira e uma imagem de Nossa Senhora de barro, ambos trazidos do Norte do País. As imagens vivem cercadas por plantas. "Troco-as sempre", garante. Paixão por viagensA sala é o cômodo principal. No chão, cinco tapetes demarcam os ambientes. O maior deles, um heriz de 3 m x 3,5 m, está no estar. Ali também é o lugar escolhido pela proprietária para expor seu xodó, a tapeçaria Aubusson do final do século 17 (2,80 m x 3,80 m), que cobre a parede principal.Os móveis são quase sempre antigos, da época em que se priorizava a madeira maciça. Algumas peças foram herdadas da família. Outras, adquiridas no comércio de antiguidades e feiras. A Nossa Senhora que fica sobre a mesa de canto veio do antiquário Paulo Girardi (US$ 1,5 mil). As cadeiras de estilo Chippendale foram compradas no Basile Antiquário (a partir de R$ 2 mil cada uma). "Os sofás? Eles me acompanham a vida inteira, nem lembro mais onde comprei...", admite. Pinturas só há três. Um cusquenho de São Miguel Arcanjo (arrematado em leilão), um Aldemir Martins, na parede entre os quartos, e um do pintor gaúcho Paulo Amaral. Também são três os seus filhos (idade: na casa dos 20 anos). Com ela vive agora apenas Maria Pia, a caçula. "Os meninos sempre aparecem e ainda rola aquela história de trazer a roupa para lavar", confidencia a dona da casa.Maria Amália diz que há muito optou pelo estilo europeu de viver. Faz questão, por exemplo, de mostrar as gravuras que se espalham pelo apê (sala, lavabo e hall da entrada), todas elas retiradas de um calendário comprado numa loja Laura Ashley, em Nova York. "Eu mesma fiz o passe-partout... Só a moldura foi encomendada" (no ateliê Gogó e Pimpa Alcântara, preços a partir de R$ 150 o metro). Católica, ela vai à missa todos os dias, inclusive quando está viajando pelo mundo. Assim que chega a Paris, trata logo de deixar as malas e ir até a Rue du Bac, onde está a Capela da Medalha Milagrosa. "Nossa Senhora apareceu por lá em 1830, sou devota dela", revela.Os santos, aliás, estão por toda a parte. Logo à entrada, na sala, no quarto, na varanda e nas mesas de cabeceira. É o único "exagero", se é que se pode chamar assim. Todo o resto é parcimônia. Nem as almofadas da sala - feitas a partir de tapeçaria, o que poderia soar um tanto ostensivo para um apartamento pequeno - deixam a decoração carregada. É que Maria Amália impôs ali seu jeito. Cada uma tem um detalhe, um pequeno recorte, com fundo de outra cor para contrastar.Outra paixão, além dos santos, são as viagens. "Vivo atrás de arte e religião, de museu e igreja", diz, exibindo os livros dispostos na estante branca de madeira, onde também ficam a TV, o aparelho de som e uma foto sua ao lado de "madame Chirac", ex-primeira-dama francesa. "São livros dos lugares que visitei", explica. ''''Nada é table book''''.