Chilena que ditou moda

- O Estado de S.Paulo

Eugenia Errazuriz conquistou a Europa ao mostrar, na belle époque, que o menos já é era mais

Se um bom livro ainda não foi escrito para preservar a memória da legendária chilena Eugenia Errazuriz, sua passagem pelo mundo pode ser atestada pelos inúmeros retratos que fizeram dela artistas como Pablo Picasso, Auguste Rodin, John Singer Sargent, Paul Helleu, Giovanni Boldini, Jacques- Emile Blanche e Augustus John.

 

Quem poderia prever que uma sul-americana, nascida em 1860 na remota cidade de La Calera, no Chile, de pai basco e mãe boliviana, e educada por freiras inglesas em Valparaíso se transformaria em uma das mais belas, elegantes e influentes mulheres da belle époque?

 

Uma taste maker, antes de a expressão ter sido inventada para identificar aqueles que conseguem impor uma estética e influir no gosto dominante de uma época, Eugenia Errazuriz, musa e mecenas de artistas ao longo dos mais de 50 anos em que viveu entre Paris, Biarritz, Londres e Madri, deixou rastro e seguidores que até hoje acompanham suas pegadas. Jean Michel Frank dizia que, com ela, aprendeu que é possível mobiliar um apartamento ao retirar-lhe a mobília e, em artigo na Harper’s Bazaar, em 1938, afirma ter sido ela sua maior fonte de inspiração. Igor Stravinsky não escondia ter ouvido seus conselhos quando compunha O Pássaro de Fogo e o New York Times, em 1992, a louvou como uma pioneira da estética moderna e minimalista.

 

Eugenia, em 1880, depois de um ano de casada com o milionário José Tomas Errazuriz, pintor acadêmico, convenceu o marido a morar em Paris, onde já vivia sua cunhada Amália, mulher do bem relacionado cônsul chileno na capital francesa. Em temporada de verão num palácio veneziano alugado pelo casal, Eugenia conheceu John Singer Sargent, que, encantado por sua beleza, fez ali mesmo vários esboços a óleo de seu rosto. Foi quando conheceu Auguste Rodin. Era o início de uma coleção de amigos, protegidos e admiradores como Jean Cocteau, Blaise Cendrars, Emilio Terry e Arturo Rubinstein.

 

Fascinada pelo cubismo, pelos movimentos modernistas e circulando nos salões europeus entre músicos e pintores de vanguarda, Eugenia cedo conheceu o jovem Picasso. Tornou-se sua amiga, mecenas e uma das primeiras pessoas a perceber sua genialidade. Corria que Gertrude Stein, enciumada, teria acusado Eugenia de roubar-lhe o seu "pequeno Napoleão".

 

Apesar de pouco articulada nas línguas estrangeiras, vivia cercada de pessoas que a viam como árbitro de elegância, gosto e savoir-vivre.

 

Sua filosofia era a simplicidade. Embora muito rica, condenava a ostentação. Podendo tudo possuir, preferia despojar-se. Paredes tinham de ser brancas, sem molduras, o chão muito limpo, encerado, as cortinas de linho sem forro. Com instinto para a simetria não ortodoxa, colocava seus móveis de forma original. Nada de passamanarias nem conjuntos de sofás ou poltronas em pares. Quadros, sempre sem moldura. De forma quase insolente para a época, num setting moderno punha peças antigas misturando o despojado com o luxuoso. Nada de bibelôs inúteis das eras vitoriana e eduardiana. A forma é o que daria sentido a um objeto, não o seu valor. No salão de sua casa em Paris, nada estaria ao acaso. O cinzeiro tinha de ser de vidro, simples e discreto. Se luxuoso, soaria vulgar. "Elegância é eliminação", repetia.

 

Tijolinho vermelho

 

Ciosa em matéria de proporção e equilíbrio, sabia da importância da boa arquitetura. Era o que permitia que um ambiente quase vazio se impusesse. Na casa em Biarritz, que comprou antes da guerra de 1914 e onde mais tempo viveu, além de caiar de branco as paredes, deixou sem tapetes o chão de tijolinho vermelho. Sobre uma prancha de madeira da extensão de uma parede da sala de jantar, como décor e por praticidade, criou uma natureza morta de presuntos, queijos e fatias de pão dentro de enormes cúpulas de vidro. Apesar da informalidade de suas mesas, os guardanapos eram de linho e o talher de prata francesa, da melhor qualidade.

 

Em Paris, num pavilhão que ocupou nos anos 20, uma ala da casa do Conde Étienne de Beaumont, o corrimão da escada era preto, o tapete vermelho e a poltrona e a mesa de ferro de jardim, verde esmeralda. Ali, o que normalmente estaria escondido, como a escada de pintor, o cabideiro, o baú de palha ou a cesta de lavanderia, pintou de cinza claro e deixou à mostra, pois bastava que as formas fossem belas. Para Eugenia, menos já era mais.

 

Excesso de doces açucarados com o chá da tarde seria também vulgar. Preferia uma boa geleia caseira, pão fresquinho crocante, mistura de chás feita por ela mesma e manteiga de fazenda. A esse jeito purista de viver, dedicava muito de seu tempo. A roupa de cama e mesa tinham de ser de linho, perfumadas com essências naturais, bem lavadas e engomadas.

 

Em suas memórias, Cecil Beaton conta de um chá chez Madame Errazuriz onde a forma do bule lhe chamou a atenção. Na resposta e no olhar de Eugenia de encanto e concordância sobre a beleza da peça, Beaton diz ter intuído a base de toda a sua filosofia estética. E descreve: "Nas paredes brancas, Picassos abstratos sem moldura; nas janelas, cortinas de linho listrado azul e branco, fresquinhas, com cara de recém-lavadas, e um divã e cadeiras forradas com tecido de algodão índigo". Segundo ele, Eugenia muito teve a ver com o uso popular dessa cor que remonta à virada do século. Não foi, portanto, sem motivo que Blaise Cendrars dedicou-lhe seu famoso poema Do Ultramarino ao Índigo.

 

Fada madrinha

 

Em Madri, depois de Londres, onde o casal morou durante muitos anos, foi que Eugenia conheceu Sergei Diaghilev, que deixara a Rússia, por causa da guerra, com sua companhia de balé. Foi ela a responsável por fazer que se conhecessem e por juntar num mesmo projeto Diaghilev, Cocteau e Picasso. Quando Parade, de Cocteau, com coreografia de Diaghilev, cenários e costumes de Picasso e música de Eric Satie estreou em Paris, no Teatro Chatelet, em maio de 1917, sabiam eles que ela era a grande fada madrinha. Foi quando Picasso conheceu a bailarina Olga Koklova, casou-se e passou uma longa lua de mel na casa de Eugenia em Biarritz, a famosa La Mimoseraie, deixando em suas paredes murais vendidos mais tarde por um novo dono a peso de ouro.

 

A escritora argentina Victoria Ocampo, desconfiando do que se chamava de eugenismo e intrigada com o que ouvia falar dessa chilena que recebia em casa Winston Churchill, era amiga de Lady Carnarvon, a mulher do egiptólogo que descobriu a tumba de Tutancâmon em 1922 e que, ao mostrar a Elsa Schiaparelli peças de couro rosado inca trazidos do Chile, teria provocado na costureira a mania pelo shocking pink, resolveu checar in loco. Como todos os que se aproximavam de Eugenia, caiu no seu charme.

 

Nem tudo foram flores, no entanto, na vida dessa mulher que, sem noção de dinheiro, acabou pobre. O marido, com quem teve três filhos, e por cuja pintura ela cedo perdeu o interesse, morreu de tuberculose em Londres em 1927 já quase sem recursos. Um ano depois, Eugenia ainda escreveu na Vogue suas impressões sobre a arte de Picasso. Viúva, a primeira ideia foi regressar ao Chile, mas preferiu se refugiar em sua querida La Mimoseraie. Mesmo depois de ter perdido seu único filho, Max, em 1939, ali continuou solitária até 1949 quando voltou ao seu país e se deixou morrer aos 90 anos, queixando-se de mais esse "excesso".

 

Em 1931, visionária, havia encomendado a Le Corbusier o projeto para uma casa em Vina del Mar, plano que não se materializou. Batizada Vila Eugenia, foi ganhar forma anos depois, no Japão. (www.mariaignezbarbosa.com).