Chicô à moda

Susy Dissat - O Estado de S.Paulo

As raízes do Brasil são a paixão desse arquiteto e decorador carioca, que não teme ser barroco

Francisco Soares de Gouvêa já se destaca pelo apelido. Original, incorporou um circunflexo que faz a diferença: Chicô. Esse é um entre outros detalhes de sua personalidade, que ajudam a tornar seu trabalho identificável além Rio de Janeiro, cidade onde nasceu e pela qual nutre amor desmesurado. O Brasil todo, aliás, é sua paixão, que exibe de modo escancarado, irreverente, em projetos e peças, depois que mistura, no liquidificador que é sua cabeça, nossas raízes indígenas, o sincretismo religioso do povo, suas viagens, os livros que devora, as revistas que compra às dúzias e os museus que visita. Parte dessas idéias pode ser apreciada no livro Chicô Gouvêa - O Olhar, recém-publicado pela Editora Senac Rio, fartamente ilustrado, onde ele conta a trajetória profissional e explica seu processo de criação. "As formas começam a surgir na minha cabeça e, com elas, as cores, os detalhes, como se uma onda invadisse meus pensamentos", diz. Barroco assumido, de sua prancheta já saíram trabalhos tão diversos quanto a fachada do CasaShopping e o projeto do restaurante Garcia&Rodrigues. Na primeira, mandou estampar enormes painéis com os Arcos da Lapa e recheou a área central do shopping com ícones do Rio, como o bondinho do Pão de Açúcar, o Cristo e o Maracanã. No restaurante, fez uma releitura da Confeitaria Colombo, jóia arquitetônica tombada no Centro carioca. Até mesmo o Museu do Índio, nas Laranjeiras, ganhou cara nova pelas mãos de Chicô. Foi quando, encantado com a arte plumária, começou a enquadrar cocares - alguns com molduras refinadas - que hoje estão nos inte-riores mais elegantes do Rio. Apesar de Chicô afirmar que está mais cal-mo com a maturidade, às vésperas de completar 55 anos o espírito inquieto faz com que persiga sempre um novo projeto: há cerca de um mês inaugurou, em Itaipava (região serrana do Rio), a Olhar o Brasil por Chicô, loja em sociedade com o empresário Paulo Reis. "A idéia é criar outra identidade visual para as imagens que temos do Brasil, de seus costumes, festas e frutas. É um olhar lúdico, refinado, e nada tem de artesanato", diz. "Meu produto é de fácil digestão." Coroa de bananas E é realmente uma delícia o estoque de anjos coloniais misturados às bananas, coroas imperiais e cacatuas. A coroa de bananas, que é marca da loja, faz alusão a D. João VI - segundo Chicô, o monarca que, além de trazer para o Brasil a corte escorraçada, abriu os portos, fundou o Jardim Botânico e a Biblioteca Nacional. As paredes coloridas da loja são pano de fundo para as travessuras do arquiteto, que só trabalha com produtos exclusivos. As cerâmicas, por exemplo, revelam a parceria com Luiz Salvador e podem ser encomendadas segundo o motivo que se desejar. ''''Para as casas de campo, podemos fazer, por exemplo, um projeto personalizado, combinando as almofadas (mais os estofados, painéis e móveis) com as louças'''', adianta Chicô. Os lustres com frutas, que ficam bem no campo ou na cidade, custam R$ 3.400 cada um. Já a mesa de centro com impressão sai por R$ 1.830. As cerâmicas, de motivos diversificados, têm preços de acordo com o tamanho: sousplats (R$ 64), prato de sobremesa (cerca de R$ 38), cacatua macho (R$ 65), pinha (R$ 287) e fruta tropical (R$ 78). Almofada com tecido impresso? Por R$ 220.