‘Chegar ao Brasil foi um prazer’

- O Estado de S.Paulo

Desde 1949 no País, designer se considera um ‘carioca desvirtuado’

Experiência. No início da carreira, o designer se inspirava na Bauhaus, para se afirmar como modificador de conceitos. Depois, quando estava no Brasil, encontrou seu estilo próprio.

 

 

ENTREVISTA: Jorge Zalszupin

 

Por que o senhor diz que partimos do útero materno para buscar outro ao longo da vida? Isso é a base da minha arquitetura. Meu trabalho era bastante quadrado, mas depois ficou mais esculpido. E, na verdade, sempre foi uma busca por aquela sensação de proteção.

 

Já fez psicanálise? Não. Aquilo não é meu muito meu tipo. Talvez porque nunca tenha experimentado. Sou um homem fechado.

 

Sua influência inicial foi a Bauhaus, mas depois isso mudou, não? Quando eu estava na faculdade, se trabalhava ainda com padrões franceses, aquele negócio italiano, e eu lutava pela Bauhaus.

 

Porque era o novo na época? Era para me afirmar como jovem e modificador de conceitos. Agora, depois, comecei a achar a Bauhaus muito fria. Isso, já no Brasil.

 

O senhor chegou ao País em 1949. Sabe-se que sofreu muito preconceito por ser judeu, sobretudo na Europa da Segunda Guerra. Sentiu-se acolhido aqui? Nunca vou ser suficientemente grato. Eu me achei bem aqui porque não conhecia a vida em que o prazer faz  parte. Cheguei ao Brasil no mês de fevereiro, em pleno carnaval da Chiquita Bacana...

 

Deve ter sido um maravilhamento.  Um deslumbre. Porque, sabe, eu estava sozinho, não tinha nem com quem dividir essas impressões porque minha família ficou em Paris. Eu desembarquei no Rio. Não sou paulistano, sou um carioca desvirtuado.

Mestre do design. Reedição de Zalszupin, produzida pela Etel Interiores: o banco Capri (a partir de R$ 2.100).

 

 

Em que medida o contato com o País transformou sua arquitetura em algo mais curvilíneo? Isso não se deu de um dia para o outro... Quando cheguei, não encontrava trabalho nenhum no Rio. Então, alguém falou para o Luciano Longo, arquiteto conhecido em São Paulo, que existia um cara lá no Rio que queria trabalhar. Numa oportunidade nos conhecemos ali e vim para cá exatamente no dia seguinte. Ele foi mesmo muito gentil comigo.

 

Vamos ao mobiliário produzido no tempo do L’Atelier, entre os anos 60 e 70. Seu desenho tinha muita influência escandinava, não? Até hoje tem. Tanto que minha primeira cadeira chama-se Dinamarquesa.

 

Como sintetizaria aquela experiência profissional? E o que a motivou? Veio de uma dificuldade que encontrava no trabalho de arquiteto. Quando eu acabava uma casa, as pessoas pediam que fizesse também os interiores. Mas cada um queria que o interior dele não fosse igual a outro... Me dei conta de que isso não ia dar em lugar nenhum. Além disso, descobri alguns marceneiros excelentes.

 

Quando vieram as curvas na sua arquitetura?  Quando descobri a argila, mudei completamente a maneira de desenhar. Desenhava, por exemplo, em uma prancheta a planta, depois levanta va dessa planta um 3D, que permitia fazer formas bastante escultóricas. E pouco a pouco começou a se misturar e eu já começava a explorar as formas curvas e outras dentro também das casas. Gosto, como lhe disse, de sentir proteção.

 

Por quê, afinal? Até por ter nascido na Polônia, que é um país de que nunca gostei, muito antissemita. O que um polonês é em relação a um judeu, não dá para te contar em um dia. Mas, de lá, gosto da vegetação, do clima, da comida.

 

O senhor ainda desenha móveis. Tanto que vai lançar em breve um novo assento pela Etel interiores. Que tal a fase de reconhecimento? Não sinto isso. Penso que é interesse pelos anos 70, não por mim. Então vou com a onda. Nunca tive, assim, grande repercussão. Mas mexe com qualquer pessoa. E tenho vários novos desenhos, para quem quiser.

 

Parece que o senhor se sente pouco valorizado. É isso mesmo? Nunca esperei mais. Tinha elogios de pessoas que respeito muito, como o Pietro Maria Bardi, e outras tantas para quem estou me lixando. E, nesse ponto, sou muito preguiçoso e indiferente.

 

Como analisa o design do Brasil de hoje? Não tenho contato com as pessoas. Sei dos irmãos Campana, conheço e me dou bem com o Sergio Rodrigues. Se você quer saber, acho que um break through no Brasil foi a poltrona Mole, dele. Fora isso, não sei quem fez outro...

 

E o trabalho dos Campanas? Acho que vai passar.

 

O senhor estava tirando uma sonequinha quando nossa equipe chegou. Atualmente o senhor gosta de dormir mais? Oitenta e oito anos são quase 90! O que eu faço agora? Agora eu estou cansado. Logo chega a fisioterapeuta para me fazer andar...

 

E daqui para a frente o senhor quer fazer o quê, quais são suas... Eu quero saber se eu posso morrer dormindo.

 

 

 

FRASES

 

MARCIO KOGAN, arquiteto

Do que gosto, na produção de Jorge Zalszupin, são alguns móveis do L’Atelier. Inclusive, já usei em algumas oportunidades essas peças nos meus projetos.

 

MARIA CECILIA LOSCHIAVO DOS SANTOS, professora de Design da FAU

Quando você me pergunta sobre Zalszupin, vejo uma peça dele dos anos 70, injetada, que tenho até hoje em casa. Acredito que, com esse tipo de produção, esse designer fez uma espécie de preview, sempre com muita inteligência, do que mais tarde seria nossa vida sintética e de plástico - da casa ao dinheiro. Afinal, hoje em dia ninguém carrega moeda, só cartão...

 

MARCELO ROSENBAUM, designer

Não o conheço pessoalmente, mas acho que suas peças têm uma marcenaria muito elegante. Acredito que há um formalismo interessante da madeira maciça e dos encaixes, por exemplo. Ele é um dos nomes importantes da história do design brasileiro e parece ter trazido a sabedoria de uma cultura diferente, como ocorreu com alguns outros precursores do móvel moderno no Brasil.