Cenário geométrico

Bete Hoppe - O Estado de S.Paulo

Forma do mobiliário valoriza casa projetada por Paulo Mendes da Rocha

Decorar sem interferir no estilo arquitetônico e ainda enriquecer o projeto assinado por Paulo Mendes da Rocha. Eis o desafio encarado em 2004 pelas arquitetas Alessandra Benotti e Luciana Godoy na casa de cerca de 320 m², próxima à Praça Panamericana, em São Paulo. Concreto aparente, fechamento em vidros e espaços claros marcam a estética desse imóvel dos anos 50. "Limpamos o contorno, dentro e fora, e jogamos com formas e cores em pontos estratégicos para compor o cenário contemporâneo", explica Alessandra. Valendo-se da volumetria estrutural de linhas modernistas, as arquitetas abusaram de peças geométricas (custo por projeto, entre R$ 45 e R$ 65 o m²). "É quase como um quebra-cabeça, uma brincadeira de montar o layout", compara Benotti. Formas marcantes No andar superior, mudanças apenas no closet, que ganhou armários de freijó (execução da Marcenaria Ambient, preço sob consulta), e no home theater, agora oculto por biombo. É no térreo, sobretudo no living de pé-direito duplo, que a proposta de redecoração fica clara. Mobiliário de formas marcantes preenchem o espaço delimitado por paredes brancas e vidros. Exemplos? Mesa de centro Elíptica de madeira natural e metal, design Charles Eames (com 2,20 m, R$ 4.770, na Casa 21), banco retangular com mesa de apoio encaixada (criação das arquitetas), que dá suporte aos sofás e poltronas, e cubos de vidro adaptados como mesas laterais. Tudo disposto a partir do par de chaises (modelos a partir de R$ 3.573,47 sem o tecido, na Dpot) em veludo preto (liso, com teflon de fábrica e 1,40 m de largura, R$ 130 o metro linear, na Donatelli). "Os painéis envidraçados que separam os jardins interno e externo inundam o living de luz natural e agregam o verde ao social", diz Alessandra. "Já o preto serve de contraponto e ajuda a distribuir as outras cores." Quanto à vegetação, bromélia, bambu-mossô, ciclantus e pacova criam uma espécie de quadro natural, à noite, graças à iluminação pontual. Apenas a caixa quadrada roxa que emoldura a lareira quebra a linguagem do preto-e-branco. Aquela cor se repete nas almofadas sobre os sofás revestidos de couro natural branco (R$ 90 o metro linear, na Contemporânea). Os estofados foram criados por Alessandra e Luciana, levando em conta que um deles ficaria de costas para a sala de jantar, um nível abaixo. Assim, o encosto tem baixa altura e os pés de inox formam um retângulo vazado tal qual um "perfil escultórico". Ainda no quesito cor, o verde-cítrico pintado sobre a textura tensai (R$ 32 o m², na Paper.com) que reveste as paredes do lavabo confere frescor ao espaço visto do estar. Na sala de jantar, a estrela é a mesa circular Saarinen (de 2,44 m x 1,37 m x 0,72 m, R$ 9.329, na Forma). "Muitos elementos coloridos distrairiam o olhar; por isso, o lustre e as cadeiras são transparentes, ?desaparecendo? no ambiente", diz Alessandra. Vinhos, no subsolo As pedras da mureta sinuosa que separa a sala de jantar e o living ressurgem nas paredes do subsolo, onde fica a cave - ali, a temperatura natural é perfeita para abrigar bebidas. Nesse espaço antes ocioso, as garrafas de vinho estão dispostas em painel vertical de madeira e os acessórios, nas prateleiras inferiores do móvel desenhado pelas arquitetas. A degustação se faz na mesa retangular, trabalho artesanal em que foram usadas cruzetas de postes de luz. Os brindes, aliás, podem se estender à área da piscina, integrada ao living por painéis de vidro. Na varanda, as linhas retas do banco tipo deck margeiam a mesa de centro e seguem a geometria das vigas perfiladas no teto. Essa mesa, foi criada pela proprietária, que aproveitou uma janela de demolição para fazer o tampo. No canto oposto, a rede de madeira (da Asian Elements) dá um sotaque asiático ao verde tropical.