Cenário de roça

Marisa Vieira da Costa - O Estado de S.Paulo

A paisagista Renata Tilli vive no meio de um bosque com centenas [br]de espécies encravado no Campo Belo

No século 19, o Campo Belo era uma região de chácaras, a maioria ocupada por colonos alemães. Hoje, nesse bairro que concentra grandes condomínios de casas e apartamentos, restam poucas propriedades de terreno generoso. Uma delas pertence à paisagista e artista plástica Renata Tilli. Na área de 5.400 m², cercados por um bosque com centenas de espécies, estão a construção de 1927 (usada como escritório e ateliê de Renata) e o antigo estábulo da fazenda, transformado na casa de atmosfera ao mesmo tempo rústica e moderna."Sou da roça e aqui é meu universo", diz a paisagista, embora sua figura em nada lembre o estereótipo de ?caipira?, como ela se define. Loira de olhos claros, esguia e elegante, Renata vem de uma família do norte da Itália. "No começo do século 20, meu avô veio para o Brasil e se estabeleceu em Campinas, onde fundou a Floricultura Campineira, em 1913. Papai continuou com o negócio e hoje, aos 83 anos, é um dos maiores conhecedores de transplante de árvores adultas do País - meu parceiro de vida e de profissão", diz, emocionada. Criada em meio a plantas, Renata não poderia ter seguido outro rumo: aprofundou seu estudo de botânica, mesmo não tendo feito curso. "Jamais seria uma paisagista se não conhecesse o universo vegetal, se não tivesse sido criada em fazenda", revela. Começou no paisagismo há mais de 30 anos, como assistente de Renato Righetto. Morou na Europa no final dos anos 80 e voltou como paisagista profissional com a consciência ecológica bem alerta. "Naquela época já discutia o que é moda hoje... Meu foco é tudo o que é livre, como a natureza. Adoro palmeiras, bambus e capins, tudo o que é capaz de dobrar ao vento", resume.Foi por meio de amigos que, em 1993, Renata encontrou a propriedade no Campo Belo. "Tinha a casa, o estábulo e a mata", conta. Quando começou a limpar o terreno, retirou 14 troncos de árvores mortas e iniciou o trabalho que, segundo ela, nunca se esgota. "Esse ?quintal?, como costumo chamar, vem sendo montado ao longo dos anos. Se a natureza não tem prazo, por que eu haveria de ter?"A propriedade é dividida em duas áreas. Numa, fica a casa principal, que sofreu reforma pontual para conter o living onde Renata recebe os clientes, o escritório e o ateliê. No interior, há cerâmicas e cadeiras que ela própria desenha (em média, R$ 1.500 cada uma). Nos fundos, está o bosque com espécies exóticas e nativas, como as duas figueiras que sustentam o balanço de madeira (também feito por ela, R$ 1.600), mangueiras, abacateiros, laranjeiras, caramboleiras (muda com 1,5 m, R$ 15, na Floricultura Campineira), limoeiros, pés de lichia (muda com 1,5m, R$ 70, idem), bananeiras e bambuzal.Num leve aclive do terreno encontra-se o estábulo, que virou casa e foi crescendo conforme a necessidade da moradora. "Aqui é meu mundo", diz a paisagista, sentada num dos bancos de madeira rústica, no espaço onde mantém um forno a lenha. Entre árvores, canteiros de samambaias-açu, filodendros e flores, ergue-se a casa verde e branca, típica de sítio, com varanda de troncos de eucalipto coberta de gelsemium e jasmim-dos-poetas (R$ 15 a muda com 1,20 m, também na Campineira). O corredor foi transformado em estar e tem teto inclinado de madeira e janelas por onde passa a luz que inunda o ambiente. O living recebeu sofás de sarja branca, quadros de Alex Fleming, Carmela Gross e Carlos Araújo, escultura de Severny e um "avião", do designer Guto Lacaz. No canto, a mesa de tronco de Hugo França; em um nicho, o altar sincrético reúne estátua de Nossa Senhora, guia de Iemanjá, rosário budista, pote com sal grosso e cristais.A sala dá passagem para a cozinha, onde Renata guarda sua coleção de vassouras, da África, Bali, Tailândia e outras compradas em armazéns de beira de estrada. Os demais cômodos também são simples - a sala de TV e o quarto do filho, o banheiro e o quarto de Renata, cujo único luxo é a cama antiga de latão. "Ando por aqui descalça. Como as frutas do quintal e as flores são o enfeite natural", diz a paisagista, que tem o jardim colorido o ano todo, seja pelas azaléias no inverno (cerca de R$ 25, no site da Iolanda Floricultura), os lírios e os agapantos na primavera, além das helicônias (Helicônia Augusta Orange, cerca de R$ 20, na Dierberger Plantas), primaveras e alpínias, em flor o ano todo. Há ainda camélias e gardênias que garantem o perfume e trepadeira de falsa vinha avançando pela fachada. "Quem conhecer vida melhor me avise!", desafia Renata.