Casacor Rio 2022 abre as portas e celebra a arte e o reunir em sua 31ª edição

Ana Lourenço - O Estado de S.Paulo

Pela segunda vez na Residência Brando Barbosa, mostra carioca investe em mais espaços utilizáveis: desde banheiros e quartos até cafés

Ambiente de Cristiana e Mariana Mascarenhas propõe espaço para conversa e descontração, mas sempre valorizando a arte

Ambiente de Cristiana e Mariana Mascarenhas propõe espaço para conversa e descontração, mas sempre valorizando a arte Foto: André Nazareth

A emoção que um espaço transmite é uma das características mais importantes a se pensar na hora de projetar. Existe até um estudo específico para isso: a neuroarquitetura. Esse impacto do ambiente físico no comportamento humano se relaciona com o nosso estado de espírito, nossas vivências pessoais, mas também com a época em que vivemos.

Pensando nisso, a Casacor propõe o tema “Infinito Particular” para suas mostras deste ano. Se no ano passado ela propunha olharmos para dentro, com foco no aconchego e intimidade, dessa vez, celebra o avanço da vacinação contra a covid-19 e propõe uma reflexão sobre o conforto e harmonia do lar, mas também sobre o receber.

Para iniciar o circuito da mostra de decoração em todo o Brasil, o Rio de Janeiro abre nesta quarta, 27, as portas da Residência Brando Barbosa para apresentar a sua 31ª edição.

Pela segunda vez consecutiva no casarão tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (INEPAC), as criadoras deram prioridade às propostas de decoração, ao contrário do primeiro ano, onde a arquitetura original e os ares palacianos da casa foram as grandes estrelas da mostra. “Quisemos trazer espaços mais usáveis, mais próximos ao público que vai aproveitar melhor os pátios, jardins, áreas de entretenimento”, conta Patrícia Quentel, sócia-diretora da mostra ao lado de Patrícia Mayer.

Ao todo são 45 ambientes projetados por 43 equipes de arquitetos, designers de interiores e paisagistas que trazem um novo olhar, mais contemporâneo, para o icônico imóvel localizado no Jardim Botânico. Dentre os espaços,  mais da metade estão localizados fora da casa principal e colocam o visitante em contato direto com os 12 mil m² cobertos por vegetação nativa da Mata Atlântica.

Varanda do Chafariz projetada pela paisagista Anna Luiza Rothier

Varanda do Chafariz projetada pela paisagista Anna Luiza Rothier Foto: Juliano Colodeti

 

 

Interior

Além de apresentarem diversas soluções para uma casa com muita personalidade e memórias, os espaços convidam o visitante a participar de cada um. No primeiro andar, a cozinha vira um espaço para café nas mãos da arquiteta Vivian Reimers, enquanto no segundo pavimento, os ambientes são transformados numa espécie de hospedaria. "Um local pensado para receber convidados de outras instituições culturais e artistas que poderiam passar alguns dias ali", contam as criadoras. 

O destaque fica para os banheiros, antes voltados exclusivamente para a higienização, agora ganham uma nova vocação: a de verdadeiras salas de banho que transformam o ambiente em espaços voltados ao autocuidado.

Finalmente nos jardins, além dos espaços comerciais e gastronômicos - que este ano inclui um complexo com restaurante, wine bar, salad bar e pizzaria -, está a Villa Casacor com 10 estúdios de 28 m² a 80 m² montados em módulos metálicos residenciais, semelhantes a contêineres, que poderiam receber designers convidados para residências temporárias.

É ali também que estão as várias das celebrações às artes da mostra. O 'Pavilhão 22', de Mario Costa Santos, traz uma homenagem ao centenário da Semana de Arte Moderna de 1922, e na piscina, uma instalação da artista visual Maritza Caneca e a exposição Olhar 2022 que reúne obras de Carlos Vergara e de jovens artistas da periferia. O diferencial é que a maior parte das obras são expostas em realidade aumentada em meio ao bambuzal e em TVs. Além daquelas que podem ser visitadas apenas virtualmente em uma galeria criada no metaverso.

No centenário da Semana de Arte Moderna, um pavilhão bem modernista projetado por Mario Costa Santos

No centenário da Semana de Arte Moderna, um pavilhão bem modernista projetado por Mario Costa Santos Foto: André Nazareth

Apesar de todas as participações presenciais, a versão híbrida da mostra continua este ano, com a versão digital permitindo tours 3D pelo site www.casacor.com.br.

 

 

Tendências

Sala de música, exposição e beleza em cada canto. A arte é o grande destaque da edição deste ano da Casacor que traz desde instalações artísticas em ambientes inusitados até a integração do metaverso com a mostra, como visto no 'Jardim BamˈBo͞o Bar', de Gisele Taranto. Um destaque nesse quesito é o espaço ‘Expo’, de Cristiana e Mariana Mascarenhas. Um espaço expositivo informal, pensado para que artistas pudessem reunir suas obras, produzir e  trocar ideias.

Em contraponto, as fibras naturais como o linho, a juta e as cestarias se destacam em diversos ambientes. No 'Estúdio da Designer', de Camilla Bortolini e Priscilla Dias, elas propõem um retorno ao básico, irregular, áspero e cru. Saindo do foco na arte digital, e se dedicando aos materiais brutos, com suas texturas, cheiros e temperaturas. Até o teto ganhou uma forração feita em corda de sisal de obra.

A claraboia do quarto projetado por João Panaggio transforma em quadro vivo a luz do dia e da noite

A claraboia do quarto projetado por João Panaggio transforma em quadro vivo a luz do dia e da noite Foto: André Nazareth

Outra novidade foram as casas montáveis que fazem parte da Villa Casacor e trazem à tona os métodos construtivos rápidos, limpos e sustentáveis. Um dos exemplos é a 'Casa Migrante', de João Panaggio, construída do zero a partir de uma estrutura metálica. O grande destaque do ambiente é o quarto de dormir, que é delimitado por uma divisória em semicírculo de madeira “trançada”, que vai do piso ao teto, alinhada com uma imensa claraboia de 2,1m de diâmetro, sob a qual repousa uma cama de casal. “Aqui, é possível dormir olhando para as estrelas e acordar com os raios de sol no rosto, filtrados pelas árvores”, brinca o arquiteto.

Os módulos metálicos, semelhantes a contêineres, que já vêm com tratamento termoacústico, foram usados em ambientes como o 'Studio Cubo', de Jorge Delmas e no 'SPA DECA', de Diego Raposo e Manuela Simas. Tanto os módulos, quanto a estrutura metálica permitem uma construção rápida (cerca de três meses) de casas, que podem até ser totalmente desmontadas e remontadas em outros lugares.

Planejado por Diego Raposo e Manuela Simas, o SPA DECA é dividido em quatro tempos: 'descompressão', para aproveitar a natureza; 'Skincare', para os cuidados pessoais e contemplação; 'Banho', para a conexão pessoal; e 'Hamman', para refletir e recarregar as energias

Planejado por Diego Raposo e Manuela Simas, o SPA DECA é dividido em quatro tempos: 'descompressão', para aproveitar a natureza; 'Skincare', para os cuidados pessoais e contemplação; 'Banho', para a conexão pessoal; e 'Hamman', para refletir e recarregar as energias Foto: André Nazareth

 

 

Preferências que ficam

Mesmo com novos olhares, as prioridades ressaltadas pela pandemia - como o home office, integração com a natureza ou espaços para relaxamento - continuam sendo importantes e celebradas na Casacor do Rio de Janeiro. 

No espaço 'Refúgio Urbano', projetado pelos arquitetos Cadé Marino, Thiago Morsch e Michelle Wilkinson, do escritório UP3 Arquitetura, esquecer da vida agitada é a prioridade. Por isso mesmo, assim que entra, o visitante entra no clima zen graças a fragrância e trilha sonora desenvolvida exclusivamente para o espaço. “Além da tradicional função de contemplação e convívio, nossa varanda foi transformada em uma zona de descompressão total. Para reforçar essa atmosfera relaxante, mergulhamos fundo na estética Japandi, que mistura a elegância tradicional japonesa com o aconchego escandinavo”, explica Cadé. “O Japão e a Escandinávia estão em lados opostos do mundo, mas têm muito em comum na simplicidade da decoração e no estilo discreto e minimalista”, acrescenta o sócio Thiago.

Assinado pela Bezamat Arquitetura na CasaCor Rio 2022, o estar íntimo com jardim integrado propõe uma pausa momentânea para relaxar e renovar 

Assinado pela Bezamat Arquitetura na CasaCor Rio 2022, o estar íntimo com jardim integrado propõe uma pausa momentânea para relaxar e renovar  Foto: Denilson Machado/MCA

Similarmente, o ambiente 'Tempo da Alma', do escritório Bezamat Arquitetura,  é pensado a partir do hiato temporal que vivemos nos últimos dois anos, com um estar íntimo que propõe uma pausa momentânea para recarregar as energias no retorno ao tempo cronológico fugaz e veloz, anterior à pandemia. “Nossa inspiração partiu da percepção da mudança de valores e de estilo de vida provocados pela pandemia. A casa tornou-se um elemento fundamental na busca pelo bem-estar e, neste novo contexto, a decoração passou a ser mais relevante do que nunca. Ressignificar a moradia usando também objetos e mobiliário que ativam a memória afetiva é a chave do equilíbrio”, conta a arquiteta Cristina Bezamat.

Casacor 2022

Instituto Brando Barbosa - Rua Lopes Quintas, 497 - Jardim Botânico

De 27 de abril a 26 de junho de 2022

Visitação de  terça a sexta, das 12h às 21h; sábado, domingo e feriado, das 10h às 21h.

Ingressos ( R$ 90) e agendamento de visitas: www.casacorrj.byinti.com

*Crianças de até 10 anos não pagam. Já idosos acima de 60 anos, estudantes com carteira oficial, deficientes (e um acompanhante) e professores das redes pública e privada (desde que apresentem documento válido com foto) pagam meia entrada. 

*É obrigatória a apresentação do comprovante de vacinação.