Caixa onde tudo acontece

Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

Pavilhão interligando duas construções preexistentes se transforma em centro de lazer para família

Logo no primeiro contato com os proprietários daqueles dois imóveis – desalinhados entre si, mas situados em terrenos anexos – o arquiteto José Ricardo Basiches sentiu estar diante de uma situação bastante peculiar. Aquele simpático casal e seus dois filhos estavam decididos a mudar de forma radical a dinâmica de funcionamento da casa da família, no Guarujá, litoral de São Paulo. Mas desde que -e isso era uma condição expressa - uma eventual reforma não apagasse por completo as marcas dos momentos felizes que eles haviam vivido por lá.

“O que eles queriam era algo novo para mim. Muito diferente de construir uma casa do zero ou criar em cima de uma pré-existente”, conta Basiches. “A reforma era desejada por todos, mas, ao mesmo tempo, eles temiam perder a essência da casa. Meu desafio maior foi transformar, sem fazer com que o conjunto perdesse sua identidade.” 

Curiosamente, a solução do dilema surgiu em plena visita de reconhecimento. Para o arquiteto, de alguma forma, parecia necessário unir os blocos já edificados, a casa e o spa, que juntos somavam 800 m². “Comecei a rabiscar e o resultado surgiu na forma de um grande pavilhão, aberto e contemporâneo, que pudesse funcionar como eixo de ligação entre eles.” 

Por dentro, um espaço para a família usufruir ao máximo, apresentado em planta aberta, sem compartimentos. Nas palavras de Basiches, “uma caixa onde tudo pudesse acontecer”. “Eles sempre gostaram de receber ao redor da piscina, que inclusive recebeu um novo traçado. Só não imaginava que eles fossem comprar a ideia. Mas foi o que aconteceu”, lembra ele.

E foi assim, após quase um ano e meio de obras, que uma gigantesca caixa de concreto e vidro, com quase 300 m², se ergueu, traçando uma ponte física entre aquelas duas construções. Além de outra, simbólica, ligando o passado e o presente daquela família, para a qual, o novo pavilhão acabou por se transformar no novo centro da casa. “Cozinhando, lendo ou jogando conversa fora, é lá que eles passam a maior parte do tempo”, conta o arquiteto.

Durante o dia, a iluminação fica a cargo da luz natural, que penetra generosa por entre os grandes panos de vidro. Ao entardecer, o enredo é outro: desenhado para proporcionar diferentes climas, o projeto luminotécnico reina soberano, avançando por sobre o jardim e a piscina. 

Obviamente, o desenho dos interiores foi pensado para atender às necessidades de seus clientes, mas, ao mesmo tempo, Basiches não poupou esforços para preservar a leveza de sua estrutura. “Faz parte do meu processo criativo pensar de fora para dentro, buscando uma coerência entre arquitetura e interiores. Me esforcei ao máximo para que tudo o que viesse a ser agregado ao pavilhão não se sobrepusesse à sua forma e conceito”, explica ele.

Assim, parede, forro de madeira e cobertura gramada, garantem conforto térmico à família e seus convidados. Enquanto um estofado contínuo, que ocupa praticamente toda a extensão do pavilhão -assumindo diferentes funções ao longo de trajeto- vem diretamente de encontro às aspirações do arquiteto. “A configuração linear do mobiliário unifica os desenhos da arquitetura e dos interiores. O resultado é uma linguagem comum que me agrada muito”, afirma. 

Nos outros imóveis, muito pouco foi alterado “Do ponto de vista construtivo eles estavam em muito bom estado. Fizemos apenas algumas alterações na planta, mas, toda a estrutura foi preservada”, conta. No mais, tudo o que há de novo na construção – incluindo os móveis – foi escolhido com base em suas condições de resistência à umidade a à maresia. “Procurei compor um espaço prático, com materiais simples, de fácil manutenção. Uma espécie de “minimalismo aplicado”. Não sei nem se existe este estilo, mas acredito que é nele que se enquadraria minha composição”, arrisca Basiches.