Cada vez mais o natural

Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

A 23ª edição da Maison & Objet é um mergulho nos acessórios ecologicamente corretos para a casa

Basta um olhar sobre os amplos corredores de Villepente, complexo de exposições ao norte de Paris, para concluir de imediato: a onda do natural e do ecológico foi um marco na 23ª edição da Maison & Objet, o principal evento internacional do setor de utilitários e acessórios para casa. Temática recorrente na maioria das coleções, a natureza ocupa o centro das preocupações dos expositores (na edição de setembro passado, cerca de 3 mil, originários de mais de 17 países) e instiga a imaginação dos designers - profissionais encarregados de dar forma a um cotidiano cada vez mais sensorial, mas nem por isso menos responsável. Em plena era virtual, o futuro da casa se desenha cada vez mais palpável, ético e durável, por meio de objetos que se propõem a oxigenar nosso dia-a-dia e convidam a natureza a retomar seu espaço. Espécie de farol para lojistas de todo o mundo, a tradicional feira francesa mais uma vez surpreendeu pelo conjunto coeso e inovador, que aponta para a coabitação entre técnicas de produção industriais e artesanais, quase sempre menos agressivas ao meio ambiente.Um enfoque que pode ser constatado, por exemplo, na coleção da Industreal - manufatura italiana de porcelanas que incorpora suas criações à exclusividade da produção artesanal, só que aplicada a objetos concebidos em série. Caso do centro de mesa denominado Moon Bowl, que lança mão de técnicas de corte avançadas para conferir ao objeto uma leveza singular, que evidencia a transparência de sua matéria-prima. Ou ainda no jogo para chá com base de madeira rústica e perfurações executadas a laser. Formatos tribaisO étnico e o primitivo - concebidos pelos designers como parceiros do durável e do permanente - se impõem como padrão decorativo. Sobretudo nas cerâmicas, caso da coleção da ISI: lustres de argila sem revestimento, que retomam formatos tribais africanos, e serviços de mesa pintados à mão - pratos que exploram temas extraídos do mundo vegetal, delicadamente acompanhados de jogos americanos bordados, também de matriz artesanal. Ao longo dos percursos da mostra, referências ao Oriente aparecem em todos os níveis de produção. Da retomada de materiais artesanais - como o papel e os tecidos rústicos, do algodão à seda -, passando pelos padrões temáticos e pelas tecnologias de produção. A exemplo da tecelagem Fujie, um dos destaques no segmento de tecidos, que retoma em sua linha as técnicas empregadas no Japão há mais de 120 anos. Sinal dos tempos, formas e desenhos que reverenciam o verde são destaque também entre os materiais sintéticos: uma folha suspensa pela brisa; uma pétala que se desprende de uma flor; uma trepadeira que avança sem controle sobre a parede - em suma, um repertório associado ao ambiente natural, mas que ganhou espaço entre os plásticos de última geração da Koziol alemã. Mais precisamente, por meio de cortinas e divisórias vazadas - que podem ser customizadas - ou de pequenas folhas transparentes, feitas para servir de suporte a saquinhos de chá.Foco no objetoNa contramão dos excessos, sobretudo os de consumo, o novo luxo se revela na atenção ao objeto - da configuração ao destino futuro. Propondo reflexão e poesia, o trabalho do francês Ernst Gamperl é exemplo emblemático: vasos feitos a partir de resíduos de árvores, rigorosos na concepção, mas que fazem das imperfeições elementos-chave na definição de uma presença vibrante.