Cabana nórdica

Olívia Fraga, de O Estado de S. Paulo - O Estado de S.Paulo

Projeto do arquiteto Todd Saunders, a casa de Bergen serve de templo, à beira de falésias, para admirar a paisagem da Noruega

O nome mais quente da arquitetura norueguesa chegou à terra dos fiordes de mochila nas costas e passaporte canadense nas mãos. Seu nome: Todd Saunders, 36 anos. O trabalho de Todd se assemelha a um serviço religioso: fazer o homem admirar, se possível de joelhos, a magnífica obra de arte da natureza do extremo norte do mundo, feita de montanhas de recortes agudos, lagos e mares gelados. Suas construções rendem-se ao prazer de contemplar a paisagem. Todd foi parar na Noruega, em 1995, depois de perambular pelo mundo. Ele havia acabado de se diplomar como mestre em Arquitetura na Universidade McGill, em Montreal. "Fiz uma longa viagem, de Paris a Pequim, só pegando carona. Até que passei uma tarde muito agradável em Bergen e decidi que ali era o lugar perfeito para morar", conta ele, que mudou-se definitivamente em 1996.Bergen é a segunda maior cidade da Noruega e palco de um dos projetos recentes de Todd Saunders, Villa Storingavika, residência para um casal e seus dois filhos que inclui um pequeno estúdio anexo que a família aluga durante os meses de férias. Storingavika, em norueguês, refere-se ao lugar onde a casa está construída - região de falésias. "No terreno de 2 mil m² havia antes uma cabana usada no verão", lembra Todd. "Os donos decidiram viver ali, derrubaram-na e me chamaram para construir outra."Dá vontade de saber onde termina o Canadá e onde começa a Escandinávia no trabalho de Todd. Ele entende o peso da tradição arquitetônica local: Alvar Aalto, Bruno Mathsson, John Utzon, Sverre Fehn - a lista de arquitetos de renome não termina. Mas talvez haja mais pontos em comum do que diferenças entre os países. Do clima frio às florestas de clima temperado e à notável afeição pela natureza - sim, a Escandinávia pode estar escondida entre as faias e bordos canadenses. E vice-versa.Todd capta a mensagem. Entre os elementos dessa tradição, reúne os ingredientes para criar seus projetos de arquitetura: caixas de madeira, o vidro que é tela para captar a paisagem, o espaço ordenado sem o uso de paredes, o edifício protegido e ainda assim aberto à contemplação do entorno. A moldura disso tudo é quase uma nota fora da escala: o projeto não é um bangalô como tantos outros distribuídos pela costa norueguesa, nem a casa de boneca com telhado de duas águas típica do interior do país, ambos síntese da tradição. A construção de dois andares, racional e limpa, é marcada pelo prolongamento de um dos lados no segundo piso - são apenas três barras de aço sustentando 6 metros de varanda na parte de cima."Na fundação, usei estrutura de concreto. Todo o resto é madeira", diz Todd, cujo projeto demorou três anos para ficar pronto. Antes de erguer uma casa, o arquiteto sempre constrói a maquete em madeira. E foi assim que ele pensou a casa de dois andares, sendo o superior maior por conta do balcão criado na lateral, valorizando a suíte do casal. Essa varanda vira um observatório particular de onde se vê o arquipélago e os fiordes.Os painéis de pinheiro (R$ 100,28 cada placa com 2,30 m x 0,91 m x 0,15 m, na EcoLeo) da fachada merecem atenção. Peças largas foram mantidas ao natural. Outras, cortadas mais finas, estão escurecidas. Criam uma borda de 60 centímetros entre os dois andares da casa, e depois se espalham pelo bloco lateral. É como se Todd quisesse criar uma volumetria dentro de outra, forjando profundidade na madeira por meio da cor e de um beiral.Calor das águas oceânicasAs placas de madeira certificada interpõem-se às portas de vidro deslizantes. Na casa de 304 m² não há batentes, quinas ou rodapés - e a decisão veio dos donos, que, como era de se esperar entre escandinavos, apreciam design e arquitetura. Outra idéia deles foi dar liberdade aos filhos no térreo, onde ficam os quartos de cada um, além de cozinha, uma sala de estar maior e área de serviço. O piso superior está à disposição exclusiva do casal, que desfruta de uma saleta íntima e da suíte de vista panorâmica. Outro destaque diz respeito ao aquecimento da casa: um sistema de encanamento capta o calor das águas oceânicas e transmite esse calor, aquecendo o piso. Os olhos, após percorrerem as linhas das fachadas e a presença de certos materiais, acostumam-se a procurar nos móveis a mesma linguagem. E encontram. Objetos de decoração cumprem seu papel funcional e estético, com alguma preponderância da italiana Cassina nos estofados, da sueca Ikea em mesas de apoio e da Miele americana para equipamentos de cozinha - com tal arquitetura, a casa precisa realmente de muito pouco.