Bom gosto italiano

Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

No apê do arquiteto Gianfranco Vannucchi, sobrepõem-se arte, design e artesanato

Elegante como uma cidade européia. Assim o arquiteto Gianfranco Vannucchi descreve a São Paulo que ele conheceu ao chegar ao Brasil, vindo de sua Florença natal em 1961, aos 11 anos. Uma metrópole em formação e na qual, à parte a língua - que hoje domina sem sotaque - ele se sentiu de imediato parte integrante. "Se vestir de maneira mais formal ao sair à rua, por exemplo, era natural", lembra. Traços daquela "discreta elegância" que ele reencontrou, quase intacta, na cobertura no Jardim Paulistano, há pouco mais de dois anos."Ela é bem localizada, possui uma vista fantástica, mas não é afetada, metida a besta", brinca o arquiteto. "Praticamente não tive de reformar nada. Com exceção de um trecho do piso na sala e de um banco que retirei na cozinha, a maior mudança se deu na parte elétrica", conta Vannucchi, satisfeito com o projeto da lighting designer Carmen Salaroli, que uniformizou a iluminação de teto com sistema com soquete aparente - prático na hora de trocar lâmpadas, dado o avantajado pé-direito - e instalou um rodapé oco por toda a extensão do apartamento, capaz de levar a fiação para todos os pontos, sem rasgar uma única parede.No mais, os trabalhos envolveram eliminar as "gambiarras" existentes (serviço executado pelo eletricista José Marques, preço sob consulta), além da pintura (off white da Suvinil, R$ 34, a lata de 3,6 l, na CCB Tintas). "Típicos dos anos 50, os gabinetes e os lambris de madeira estavam em excelente estado de conservação", diz. Menina dos olhos do arquiteto, eles continuam emprestando ritmo e autenticidade aos luminosos interiores do imóvel."O armário do bar, por exemplo, é bonito e funcional. Deixa os copos à vista, facilitando a escolha", afirma Vannucchi, referindo-se ao móvel que abriga a rara coleção de cristais, com peças herdadas ou garimpadas em viagens. Um acervo que o morador faz questão de dispor na boa companhia de um óleo de Vânia Mignone e de uma rara "collage" de Carlos Fajardo, arrematada em leilão.Dono de um olhar atento, capaz de detectar preciosidades sem distinção de domínios - por todos os espaços do apartamento arte, antiguidades, design e artesanato se sobrepõem, sem transições - Vannucchi reserva aos visitantes surpresas de refinada ironia. Que o diga a secular tapeçaria: na Itália, revestia cadeiras eclesiásticas e hoje, emoldurada, adorna sem cerimônias o banheiro do arquiteto. Presente ganho da mãe, que recebeu o objeto do avô, um dos maiores antiquários de Florença. "Pena que a maioria dos clientes dele eram americanos e meu avô quebrou com o crack da bolsa de Nova York, em 1929." Vannucchi também aponta a origem dos bois, presentes na série de esculturas: "Mammy vaca tem as tetas cheias porque está amamentando. Comprei numa lojinha de Flecheiras, no Ceará". Uma coletânea de gosto eclético, sem dúvida, realçada ainda mais por objetos que levam a assinatura do arquiteto: a passadeira da sala, criada para a Companhia dos Tapetes Ocidentais - pioneira na venda de tapetes assinados - e a cama Stacatto (com 1,45 m x 2,25 m e colchão incluso, a partir de R$ 8.807) da Ornare. No quesito mobiliário, impossível ignorar a sensação de se estar diante de uma retrospectiva de alguns dos melhores momentos do design de todos os tempos (e latitudes). A começar pelo estrelado living, com clássicos como a LC7, poltrona desenhada por Le Corbusier e Charlotte Perriand em 1928 (R$ 2.800, no site www.visualcontemporaneo.com.br). "Ganhei como prêmio de um concurso do Instituto dos Arquitetos do Brasil, em 1987", conta, destacando um detalhe ilustre: "Recebi o móvel das mãos dela. Era uma mulher linda e radiante", relembra o arquiteto, com emoção.Dignas de nota - e de saborosas lembranças - são a cadeira Paulistano (a partir de R$ 2.298, na Dpot), clássico de Paulo Mendes da Rocha, e as poltronas de couro de Carlos Motta, colocadas na sala de jantar. "Quando criança nadava no clube de mesmo nome. Nem sabia quem era o Paulo, mas adorava me esparramar nas cadeiras do bar e devorar um mixto quente", diz, sem poupar elogios também a Motta. "Gosto do trabalho dele. É um dos poucos capazes de conceber desenhos originais, sem ceder a modismos ou abrir mão da qualidade", comenta.Um conjunto sob todos os aspectos referencial, mas que conta com uma estrela máxima, é a poltrona Favela, do irmãos Campana. "Admiro o método de criação deles, a partir da livre apropriação de materiais apresentados em outros contextos", explica o arquiteto, orgulhoso de possuir um modelo construído, com lascas de madeira e pregos, pela dupla em começo de carreira - móvel matriz da versão atual, comercializada pela Edra italiana (preço sob consulta em www.edra.com). "Êta olho bom!", exclama Vannucchi com seu bom humor habitual - mas, convenhamos, não desprovido de razão.