Beleza Necessária

Marcelo Lima - O Estado de S. Paulo

Para o designer David Trubridge, o belo é o antídoto contra o descartável

O designer britânico David Trubridge, tendo ao fundo alguma de suas criações

O designer britânico David Trubridge, tendo ao fundo alguma de suas criações Foto: Richard Brimer

Consciência ambiental e natureza são assuntos indissociáveis do trabalho do designer britânico, radicado na Nova Zelândia, David Trubridge. Famoso por suas luminárias de grandes dimensões, de desenho engenhoso e construção manual, Trubridge esteve em São Paulo, na semana passada, para proferir palestra e inaugurar uma exposição retrospectiva de seu trabalho. “Conheço pouco o Brasil, mas do que vi, me agrada a forma com a qual os designers parecem se relacionar com a natureza”, conforme ele afirmou, nesta entrevista ao Casa

Apesar da sua formação em engenharia, seus trabalhos têm muito de artístico. Esta sua intuição é inata ou foi adquirida ao longo da vida?

Acredito que todos nós nascemos com alguma intuição artística, mas claro que ela pode ser aprimorada. Para acessar essa dimensão, no entanto, creio que é necessário sair da superfície. É preciso mergulhar fundo. Encontrar lugares e situações que te possibilitem se conectar com algo mais profundo. Cada um tem sua forma de fazer isso. Pode ser através da música, da poesia, do contato com a natureza, como acontece muito comigo. Depois, claro, é preciso voltar à superfície e encontrar os materiais e técnicas capazes de realizar sua intuição. Mas é fundamental que este contato prévio ocorra, caso contrário nada acontece, só design superficial. 

Luminária criada pelo designer David Trubridge, a partir de lâminas de madeira, tendo ao fundo planta que lhe serviu de inspiração

Luminária criada pelo designer David Trubridge, a partir de lâminas de madeira, tendo ao fundo planta que lhe serviu de inspiração Foto: Richard Brimer

O senhor se tornou conhecido por suas luminárias de grandes dimensões. De onde vem este interesse por trabalhar formatos maiores?

De fato me agrada trabalhar na grande escala. Primeiro, porque é muito diferente a relação que se tem com um objeto quando ele é muito maior do que você e, o que, por si só, já agrega um componente escultórico a seu trabalho. Depois, ao contrário de um objeto feito para ser industrializado, no qual tudo deve ser mensurado, calculado, exato, nas peças maiores você goza de uma liberdade muito maior de criação. Como, em geral, eles são únicos, você pode veicular melhor suas emoções e histórias.

O mesmo princípio é aplicado em peça que faz alusão ao tronco de um coqueiro

O mesmo princípio é aplicado em peça que faz alusão ao tronco de um coqueiro Foto: Richard Brimer

Uma de suas mais conhecidas palestras, Beauty Matters, o senhor associa a beleza à própria noção de sustentabilidade. Como é essa relação?

Penso que a beleza é sim, absolutamente necessária. Não falo da beleza de uma pessoa ou de um objeto, mas de algo que pode ser atingido por meio do cuidado, do amor que dedicamos a uma coisa. Se você cria um copo de plástico descartável, não existe beleza nenhuma envolvida nisso, ao contrário de um copo de cerâmica, feito à mão, que você cuida, quer manter, não jogar fora na primeira oportunidade. Temos de parar de criar coisas descartáveis. Por isso a beleza é mais do que nunca necessária.